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Bolsonaro está nu

Tiago Zapater
Só eu vi Bolsonaro nu?
Na reunião, gritando com seus ministros “não vou deixar foder minha família, meus amigos, troco diretor, se não puder, troca superintendente, se não puder eu troco o ministro“?
Trocando quatro vezes o diretor da PF, até fazer a PF concluir que não houve interferência dele na PF? Debochando do combate à corrupção com a pérola “eu acabei com a lava-jato“?
Comprando apoio parlamentar com o orçamento secreto, teatralmente vetado pelo presidente, enquanto a bancada bolsonarista na Câmara aprovava?
Rindo e brincando no meio da pandemia? Fazendo pouco caso das mortes (“não sou coveiro“; “e daí“) ?
Falando contra o uso de máscaras? Negando a ciência, quando a ciência era inconveniente? Só eu vi Bolsonaro dizendo que não ia comprar vacina? Dizendo às pessoas que não se vacinassem, ou poderiam “virar um jacaré“?
Só eu lembro que se não fosse João Dória a vacina talvez nem viesse…?
Só eu vi a educação no lixo? As taxas imensas de evasão escolar? A piora em todos os níveis? A paralisia no MEC e o assalto generalizado ao orçamento da educação?
Só eu vi Ricardo Velez, Arthur Weintraub e Milton Ribeiro em uma sucessão de trapalhadas, incompetência e corrupção?
Quão grave não é a corrupção no MEC para Bolsonaro, após dizer que botaria a cara no fogo pelo ministro, precisar mandar o cara embora?
Só eu vi que Bolsonaro tem um projeto de aumentar o desmatamento? O garimpo ilegal? A grilagem de terras? Passar a boiada?
Bolsonaro demitiu:
O comando das forças armadas, porque não quiseram apoiar seu projeto golpista. Os diretores da Polícia Federal que não concordavam com interferência do governo. Demitiu 20 delegados da Polícia Federal. O diretor do INPE, porque não gostou dos dados sobre desmatamento. Presidentes da Petrobrás que não concordaram com a interferência no preço dos combustíveis. Presidentes do INEP que não concordaram com a interferência no Enem. Diretores do BNDES, porque não inventaram uma caixa-preta a ser aberta. Demitiu o presidente da FUNAI, porque este não era suficientemente contra os indígenas. Demitiu a presidente do IBAMA.
Essa é a democracia de Bolsonaro ? Que não reconhece nenhum freio e nenhum contrapeso ao seu poder? Que exige instituições servis?
Bolsonaro governa na base de ameaças: “se esticar a corda…“; “se as eleições não forem limpas“; “não queremos sair das quatro linhas, mas se esticar a corda…“. Quem exerce poder com base em ameaças, se não criminosos?
Bolsonaro falou que, se o Supremo não “baixar a temperatura“, ele aumentará o número de ministros, para forjar uma maioria que evite que a aplicação da justiça desagrade o governo. Sem tirar nem por, exatamente o que Maduro fez na Venezuela.
Esse é um presidente que ameaça um tribunal porque esse tribunal decide contra ele: ou você começa a decidir como eu quero, ou vai sofrer as consequências.
Bolsonaro está nu e todo mundo pode ver.
Não existe nenhuma dúvida sobre o que ele é, representa e oferece. Não existem mais máscaras disponíveis, estamos todos nus. A questão é se podemos conviver nus.
Epílogo – e o Lula? e o PT?
Para acreditar na culpa de Lula, é preciso acreditar em Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, que colheram, produziram e interpretaram as provas. As tais três instâncias que condenaram Lula confiaram que Moro trabalhou bem e com isenção. Deu no que deu. Já no âmbito do governo, do orçamento secreto ao MEC, nada indica que haja menos corrupção .
E os religiosos, o que temem? E quem lhes disse para temer? Em 14 anos de governo do PT, nenhuma igreja foi fechada. Isso sequer foi, em algum momento qualquer, discutido, Nenhuma droga foi legalizada. Nenhuma proposta de legalização do aborto foi, sequer, discutida.
E os moralistas, qual o critério? Lula foi casado por 40 anos com a mesma mulher e que, até onde consta, nunca foi sua amante nem recebeu depósitos esquisitos de gente como o Queiroz. É mais do que se pode dizer de Michele Bolsonaro.
Convém lembrar que Lula nunca disse que usou dinheiro público para “comer gente” e não consta que tenha flertado com adolescentes ou prevaricado ao se deparar com o que acreditava ser prostituição infantil. É mais do que se pode dizer de Bolsonaro.
Assim, o leitor exigente teria razão em perguntar se eu não vi nada também nos anos do governo Lula. Vi muitas coisas, mas, no final do dia, há apenas duas opções e só uma delas, quando teve a chance, governou democraticamente.
Para Saber Mais
Sobre as várias demissões no governo Bolsonaro
https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-ministros-funcionarios-alto-escalao-demitidos/
Governo Bolsonaro teria demitido ao menos 20 delegados em cargos de chefia na PF
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O que é um governo autoritário?

Tiago Zapater
Ainda em 1941, no calor da Segunda Guerra, o psicólogo e filósofo Erich Fromm escreveu um livro sobre a psicologia do nazismo, chamado Medo à Liberdade. O autor queria entender as motivações psicológicas e sociais para o fato, já naquela época consumado, da popularidade do nazismo.
Embora os detalhes macabros do holocausto ainda estivessem em andamento, Hitler já era Hitler. Hitler nunca escondeu suas ideias. Seu livro-propaganda Mein Kampf havia sido lançado em 1925 e, em 1940, 6 milhões de cópias já tinham sido vendidas. Está tudo lá: supremacia racial, anti-semitismo, anti-marxismo (um capítulo inteiro intitulado “a luta com a frente vermelha” – cap. 7, v. II), nacionalismo expansionista, tomada do poder e ódio a imigrantes. Hitler já era, desde 1921, líder (Führer) do Partido Nazista, e a ideologia do partido se confundia com a do próprio Hitler.
Ainda assim — ou, justamente por isso — o partido cresceu, ganhando milhares de novos membros, inclusive membros armados (4000 paramilitares). Sim, Hitler não desarmou a população para tomar o poder, como se lê às vezes internet afora. Por ter perdido a I Guerra, a Alemanha havia, já antes, sido obrigada a entregar imediatamente todas as armas. Hitler promoveu, a partir de 1928, um relaxamento nas leis de controle de armas, promovendo o armamento da população, em especial para “cidadãos de fidelidade inquestionável” (expressão da lei), o que incluía membros do Partido Nazista e excluía, expressamente, judeus, ciganos e outros grupos.
Em 1932, o partido Nazista obteve a maior votação nas eleições gerais e, em 1933, Hitler foi, legalmente, nomeado chanceler. Daí para frente, farsa e tragédia. Em fevereiro, os nazistas culpam partidos de esquerda por um incêndio no prédio do parlamento e os parlamentares de oposição são proibidos de entrar no parlamento a partir de então (e de exercer qualquer oposição). Pouco depois, todos partidos são desmantelados e postos na ilegalidade. Em 14 de julho, uma lei decreta que a Alemanha é um estado de partido único, o nazista.
Tudo isso contou com apoio geral da população. Mas por que tanta gente aderiu a um conjunto de ideias horríveis? O livro de Fromm explica que a escolha de se submeter ao autoritarismo pressupõe sempre uma relação de simbiose: o autoritário quer dominar os mais fracos, a quem despreza, e também quer ser dominado por alguém mais forte, ou uma força maior (Deus, pátria, família essas coisas). O autoritário abre mão de uma parte de seu ego (sua identidade) para se deixar ser definido por essa relação de domínio.
Para o livro, a liberdade moderna, fundada na economia de mercado e na liberdade de religião, rompeu antigas amarras sociais, mas trouxe também uma profunda solidão, uma perda de conexão com o mundo. A submissão ao autoritarismo oferece um substituto daquela ligação com o mundo, que já não existe mais. O autoritário está buscando, na dominação, uma forma de se relacionar com as outras pessoas. O exercício dominação/submissão funciona bem porque satisfaz impulsos sadomasoquistas, trazendo segurança em um ambiente de inseguranças. O sadomasoquismo pode, ainda, muito facilmente, ser confundido e ocupar o lugar do amor, razão pela qual o autoritarismo é também uma forma de populismo. Um ambiente de extrema insegurança, desemprego, falta de perspectivas, como era a Alemanha após a I Guerra, é extremamente fértil para o surgimento de projetos de autoritarismo.
O problema humano de fundo, diz o autor, não é o de limites à liberdade — a vida sempre estará cheia de algum tipo de limitação da liberdade –, mas da solução da solidão. Para tanto, há alternativas, como o amor, solidariedade e criação, essencialmente artística, que são modos de se exercer uma liberdade positiva, isto é, uma liberdade para (realizar potenciais) e não apenas uma liberdade de (limitações). Essa liberdade positiva, de realizar potenciais, cumpre a função de restabelecer a conexão com o mundo (o que o autoritarismo apenas aparenta fazer). Essa conexão e essa liberdade só é realmente possível quando reconhecemos no outro um igual, alguém tão cheio de potenciais a serem realizados como nós mesmos.
Isso é impossível na relação fundada no autoritarismo porque, segundo o autor, o autoritário, “baseado em seus anelos sadomasoquistas, (…) só experimenta dominação ou submissão, nunca porém solidariedade. As diferenças, seja de sexo ou de raça são, para ele, indícios necessariamente de superioridade ou inferioridade. Uma diferença que não tenha esta conotação é-lhe inimaginável” (Medo à Liberdade, p. 141).
Um autoritário irá tipicamente se opor a projetos e ideias de inclusão e diversidade. O autoritário só pode pensar diferenças em termos de superior/inferior, porque essa é a premissa para a relação de dominação/submissão que orienta sua visão de mundo. Para o autoritário, inclusão permite que pessoas inferiores sejam colocadas em uma posição de falsa igualdade com pessoas superiores. Pouco importa, aqui, se o autoritário acredita que a inferioridade é resultado de nascimento (raça, gênero) ou das estruturas sociais, o problema é como ele vê as diferenças. Uma organização (escola, empresa, comunidade, estado etc.) preocupada em realizar potenciais busca efetiva diversidade entre seus membros não para cumprir quotas de uma igualdade formal, mas porque se beneficia em ter diferentes histórias de vida e visões de mundo.
Algo parecido vale para o valor da criação. O potencial criativo reconecta o homem ao mundo e realiza também aquele aspecto positivo da liberdade (liberdade para). Criar, sempre, é para os outros (ainda que esses outros estejam só na cabeça de quem cria) e em um mundo onde há outros. A criação oferece uma visão de mundo e esse oferecimento pressupõe um reconhecimento do outro, que reconecta o homem ao mundo. Arte e cultura são fundamentais nesse caminhar. O autoritário, por sua vez, “cultua o passado; o que já foi será eternamente. Desejar algo ou trabalhar por algo que ainda não houve é crime ou loucura. O milagre da criação – e a criação é sempre um milagre – escapa ao campo de sua experiência emocional” (Medo à Liberdade, p. 139).
Para o autoritário, a relação superior/inferior precisa estar legitimada em uma ordem natural das coisas, uma ordem, por excelência, hierárquica e atemporal: sempre foi, sempre será. O autoritário, quando fala em revolução, é para voltar a um passado que, na visão dele, nunca deveria ter cessado de existir. Todo projeto político autoritário constrói um passado mítico para legitimar a dominação no presente. A dominação raramente se legitima como fruto de uma nova visão de mundo.
Em termos políticos, liberdade positiva (liberdade para) pressupõe democracia, pois pressupõe a inclusão de todos em suas individualidades. Muito mais do que o rito das eleições, democracia exige a convivência de diferentes visões de mundo, projetos de país, alternância no poder e respeito aos direitos fundamentais. A democracia exige caminhar com os olhos para o futuro, porque o ocupante do poder, em uma democracia, é sempre temporário. Não é um governo para maiorias, mas para todos.
Em época de eleições, fica a sugestão ao leitor de identificar o caráter autoritário ou não diferentes projetos oferecidos a partir do modo como valorizam ou não as diferenças e a criação.
Para Saber Mais
Medo à Liberdade (Erich Fromm)
Usei aqui a 14ª ed. da Editora Ltc. As páginas referidas são dessa edição.
Sobre a ascensão de Hitler e do partido nazista
Enciclopédia do Holocausto do Museu do Holocausto nos Estados Unidos, disponível em português em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/adolf-hitler#:~:text=Adolf%20Hitler%20foi%20o%20l%C3%ADder,julgamento%20trouxe%20fama%20e%20seguidores
Sobre a falácia de um Hitler desarmamentista
“Response to Bernard E. Hard E. Harcourt’s On Gun Registers On Gun Registration, the NRA, action, the NRA, Adolf Hitler, and Nazi Gun Laws: Exploding the Gun Culture Wars (A Call to Historians)” – Deborah Homsher. Disponível em https://ir.lawnet.fordham.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://en.wikipedia.org/&httpsredir=1&article=4031&context=flr
Sobre as vendas de Mein Kampf
https://www.history.com/this-day-in-history/mein-kampf-is-published
Adolf Hitler: Tax-payer publicado no The Americal Historical Review, julho de 1955, Oron James Hale.
Sobre livro Mein Kampf
O livro entrou para o domínio público em 2015 e várias editoras, inclusive no Brasil, buscaram relançar. Houve, contudo, uma proibição judicial ao livro impresso. O e-book do livro, com comentários de um historiador, pode ser encontrado:
Há uma versão online em inglês aqui:
https://mondopolitico.com/library/meinkampf/v2c7.htm
Minha opinião sobre a leitura de Mein Kampf:
Li alguns trechos do livro e a análise que o próprio Erich Fromm faz dele, com várias transcrições. Ainda pendente minha leitura completa (mais de 600 páginas…) arrisco dizer que deveria ser leitura obrigatória (sempre com os devidos avisos e orientações, como foi o caso da versão comentada lançada no Brasil e proibida). A semelhança do discurso de Hitler com várias das ideias em circulação na política atual é impressionante e me faz perguntar se há outros interesses na proibição da obra.
Sobre a imagem destacada
Quadro “O Enigma de Hitler”, de Salvador Dali:
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Mulheres são os Negros do Mundo?

Tiago Zapater
Caro leitor, imagine uma outra civilização, em alguma galáxia distante, onde seres parecidos conosco, por um costume de origem desconhecida, utilizassem apenas metade do intelecto disponível. Onde qualquer possível contribuição de metade dos indivíduos dessa sociedade, para tarefas dos mais diversos tipos, é simplesmente desconsiderada e não aproveitada. Essa parece uma sociedade que aproveita todo o seu potencial?
O exemplo me faz pensar na importância da contribuição do feminismo, não só para as mulheres, mas para a toda a sociedade. Seja pelas conquistas políticas (direitos para mulheres), seja pelos estudos que ajudam a entender a sociedade e a condição humana. E, quanto mais se percebe a profundidade e o alcance das questões tratadas pelo feminismo, mais preocupante é a persistência do machismo nos mais diversos âmbitos.
A mim, parece que, como sociedade (ou talvez como homens), aceitamos que mulheres e homens tenham os mesmos direitos, mas tratamos essa igualdade como um favor porque, veja bem, “mulheres e homens não são ‘realmente’ iguais“. É como se as novas ideias trazidas pelo iluminismo (igualdade de todos) ficassem (mal)acondicionadas dentro de velhas estruturas.
Antigas concepções religiosas, políticas e científicas vão sedimentando essas estruturas. A religião dirá que Deus é homem, e o pecado, original, feminino; a política dirá que líderes precisam ser fortes, e que mulheres não o são; e a ciência dirá que mulheres são “homens imperfeitos“. Mulheres seriam algo como homens a quem faltaria a força física, a razão objetiva, a capacidade de controlar emoções e, claro, o órgão fálico.
Por isso, é muito difícil, para além da abstração das leis, conseguir fazer com que a ideia de que homens e mulheres são iguais seja levada a sério e, sem isso, todo o resto fica ainda mais difícil para o feminismo. Não falta quem torça o nariz para a ideia de uma igualdade real e aponte o dedo para lembrar que, na prática, homens e mulheres são diferentes.
Mas, afinal, o que isso pode querer dizer, que homens e mulheres são diferentes? De perto, todos somos diferentes, em comportamento, preferências, aptidões, valores e mesmo nos níveis de hormônios. A questão é saber quais diferenças importam e para qual finalidade. Será que as diferenças fisiológicas e anatômicas entre homens e mulheres justificam todas as diferenças sociais que são observadas? Quais diferenças fazem diferença?
Teorias do tipo homens são de marte/mulheres são de vênus parecem ter atualizado o entulho pré-iluminista de uma visão de mundo baseada em uma grande hierarquia, onde cada ser tem o seu lugar, com deus (homem) no topo e mulheres abaixo dos homens. Restos dessa visão já tinham sobrevivido no cientificismo racista do séc. XIX e no tratamento que a ciência médica dá à mulher, buscando confirmar, com falsa cientificidade, a mentira da inferioridade natural (por exemplo, dizendo que o cérebro das mulheres seria menor que o dos homens).
Na sua versão mais recente, essas teorias propõem que a evolução teria feito das mulheres naturalmente aptas a tarefas domésticas e de cuidados com os demais (crianças, idosos, enfermos), porque dão à luz, vinculam-se instintivamente à cria e seriam fisicamente menos aptas para a caça. Já para os homens, caçadores, a evolução reservou aptidões de exploração, de contato com outros homens (na guerra, no comércio ou na política). Por coincidência, essa evolução corresponde à formação daquilo que viria a ser chamado de espaço privado e espaço público. Assim que, naturalmente, mulheres ficam e cuidam da casa e homens saem para o espaço público.
A história, a sociologia, a antropologia e, mais recentemente, a própria biologia evolutiva, mostram exceções demais para que se possa aceitar a sugestão de uma aptidão natural, fruto da evolução, inevitável porque impermeável às circunstâncias sociais, seja de mulheres, seja de homens. Desde a pré-história existiram sociedades matriarcais, sociedades com mulheres guerreiras, outros modelos de maternidade, religiões matriarcais etc.. Mesmo os padrões hormonais de testosterona, que explicariam o comportamento tipicamente masculino, variam, para homens e mulheres, em função de circunstâncias do ambiente.
Assim, aquilo que chamamos de comportamento masculino e comportamento feminino tem muito pouco de determinismo natural. São fruto de estruturas sociais que se perpetuam e que, por mais que sejam poderosas, não são naturalmente inevitáveis.
Pense-se assim: quando uma mulher engravida, uma das primeiras coisas que ela, ou o casal, fará é buscar saber o sexo da criança. Antes mesmo de a criança nascer, já há um feixe de expectativas dos pais sobre quem é (e como deve ser) a criança. Boa parte dessas expectativas tem a ver com a concepção prévia dos pais sobre o que significa ser menino ou ser menina. Revelado o sexo, os pais já preparam todo um mundo de roupas, decoração e expectativas. Quando a criança nasce, já vem ao mundo para assumir um papel de menino ou de menina.
Pais são ensinados e pensam em termos de “como criar meninos” e “como criar meninas“, e também eles foram criados assim. E as meninas são, realmente, criadas como meninas (“a princesinha do papai; a coisa mais linda“), e os meninos são criados como meninos (“o meu moleque. Meu monstrinho. Campeão“). Essas crianças crescem e se comportam de acordo com as expectativas: meninas como meninas, e meninos como meninos. E aí nós dizemos coisas do tipo: “veja só, meninos e meninas são naturalmente diferentes“, sem nos perguntarmos o que realmente há de natural nessas diferenças. E é daqui que sai todo tipo de preconceito com aqueles cuja sexualidade não segue o padrão das expectativas, tidos como não naturais.
Ora, se existe uma aptidão natural da mulher para ficar e cuidar da casa, como explicar que no Brasil, hoje, metade dos lares é chefiado, isto é, sustentado, por mulheres. Essas mulheres estariam indo contra a sua “aptidão natural“? Ou essa “aptidão natural” varia conforme as circunstância sociais? E, nesse último caso, qual a utilidade desse conceito de “aptidão natural“?
As diferenças que fazem diferença, na vida em sociedade (que é a única forma de vida que conhecemos), não são as fisiológicas, mas sim aquelas que dizem respeito à valorização social, isto é, distribuição de aprovação e recompensas. E os valores reconhecidos como dignos de aprovação social são, ainda, tipicamente associados ao masculino: racionalidade, objetividade; coragem; pragmatismo; pensamento lógico; controle das emoções etc.. Valores associados ao feminino, por sua vez, facilmente tendem para um oposto: desequilíbrio; indecisão; insegurança; superficialidade; vaidade etc..
Isso não é consequência da biologia. Esses comportamentos ou qualidades se distribuem igualmente entre homens e mulheres. O que existe é a associação com o masculino/feminino, de modo que mulheres podem ser valorizadas quando agem como homens. Mas ninguém dirá que a objetividade e raciocínio lógico são qualidades tão femininas quanto masculinas, ou melhor, que não tem nada a ver com o gênero, e sim com cada pessoa.
Estruturas condicionam a circulação das ideias na sociedade. Por isso se fala em machismo como algo estrutural. É como se sociedade desenvolvesse e passasse a operar com base em algoritmo que pré-condiciona a distribuição de valores nos mais diversos campos. Na política, ser homem pode ser mais importante do que ter o consenso dos demais. No mercado, ser homem é mais importante do que gerar bons resultados para a empresa. Na ciência, ser homem pode garantir mais credibilidade do que índices de publicação. O algoritmo do machismo se sobrepõe à lógica de cada sistema social, parasita a função social desses sistemas e organiza o que é valorizado ou não de acordo com a sua própria programação.
Percebe-se, assim, que não é por acaso que o papel de cuidados com o lar, com os filhos, com idosos e com enfermos, tipicamente reservado às mulheres seja desvalorizado, ainda que seu custo econômico esteja na casa dos trilhões (se as mulheres não realizassem gratuitamente esse serviço). É que, pelas lentes do algoritmo machista, não é que homens não consigam fazer essa função, mas sim que, como conseguem fazer outras coisas que mulheres não conseguem, há uma divisão “natural” do trabalho. E, nessa divisão, como o trabalho da mulher pode ser executado pelos homens, esse trabalho não tem valor real.
Sobraria, claro, a maternidade. Mas a valorização social da maternidade é paradoxal, pois apenas reforça a vinculação da mulher ao papel subalterno. É como se as mães tivessem, ao mesmo tempo, mais valor, mas menos possibilidades que as outras mulheres. Se você é mãe, é pressuposto que deve cuidar do seu filho e, em certo sentido, viver em função disso. Como mais explicar a absurda disparidade entre a quantidade de casos de abandono por pais e por mães?
No quadro geral do machismo, essas sutilezas teóricas podem parecer perfumaria. Os números de feminicídios, de violência doméstica, assédio, estupro; as diferenças de remuneração no mercado de trabalho; a dupla jornada das mulheres; parecem ser questões muito mais urgentes. Essas questões são urgentes, mas trabalhar a percepção da arbitrariedade da diferença de papéis (algo que o feminismo tem feito bem nos últimos anos) também é essencial.
Os recentes áudios do, por enquanto deputado, Arthur do Val, chocam porque mostram, além da sua absoluta inaptidão para a vida pública, uma realidade do machismo. Como homem branco de classe média, no privilégio das inconfidências dos privilegiados, ouvi, muitas e muitas e muitas vezes, coisas parecidas: “pega uma gorda pra tirar a zica“; “vamos para balada em interlagos, que é buc***** garantida“; “mulherada no interior é mais fácil pra quem é de fora“; “pode ser preta, pode ser feia e pode ser gorda, mas não pode ser tudo ao mesmo tempo“. Só alguém que genuinamente não enxerga a mulher, e a si mesmo, como um ser humano é capaz de ver o mundo nesses termos.
Desconstruir o próprio machismo não é fácil, nem para homens, nem para mulheres. Um bom exercício é tentar pensar levando a sério a ideia de igualdade. Se eu gosto (ou não) de praticar, assistir esportes e competir, a mulher à minha frente pode, ou não, ter o mesmo gosto. Se eu gosto, muito ou pouco, de sexo e pornografia, a mulher na minha frente também pode ser que goste, muito ou pouco, conforme suas preferências. Não por ser ela mulher e eu homem. Eu posso gostarde assumir a liderança de projetos importantes no trabalho, e também posso ter medo de me expor. Para a mulher à minha frente é a mesma coisa. Eu não gostaria de ser assediado na rua, nem por mulheres nem por homens, e é provável que a mulher à minha frente também não goste (aliás, creio que ninguém goste). Eu, nem toda vez que sou simpático com uma mulher, ou com um homem, estou procurando sexo, logo, é bem provável que a mulher à minha frente também só esteja sendo simpática.
O feminismo pode atingir altos níveis de complexidade intelectual, mas não é tão difícil de ser praticado quando se leva a sério essa ideia radical de que mulheres também são seres humanos.
É pena que, para alguns, como o deputado Arthur do Val, reconhecer a humanidade das mulheres é uma aspiração apenas para almas mais iluminadas. Ele justificou: “não sou santo, sou homem, sou jovem“. Também aqui é preciso alguma desconstrução, não há nada na natureza do homem, nem nas estruturas machistas da sociedade, que nos obrigue a tratar mulheres como objeto. Arthur do Val errou não porque é homem, errou porque não tem caráter.
Para Saber Mais
Sobre o título deste post
A sensacional letra de Yoko Ono e John Lennon (compuseram juntos, mas a inversão parece estranha né?) em Woman Is the Nigger of the World. Se vc nunca ouviu, corre lá. Segue um trecho:
We make her paint her face and dance
If she won’t be a slave, we say that she don’t love us
If she’s real, we say she’s trying to be a man
While putting her down we pretend that she is above us
Woman is the nigger of the world, yes she is
If you don’t believe me take a look to the one you’re with
Woman is the slave to the slaves
Ah yeah, better scream about it
We make her bear and raise our children
And then we leave her flat for being a fat old mother hen
We tell her home is the only place she should be
Then we complain that she’s too unworldly to be our friend
We insult her everyday on TV
And wonder why she has no guts or confidence
When she’s young we kill her will to be free
While telling her not to be so smart we put her down for being so dumb
Woman is the nigger of the world, yes she isSobre os fundamentos religiosos e a mulher como um homem imperfeito
Sobre a falácia dos homens de marte e mulheres de vênus
Sobre os lares chefiados por mulheres
Sobre a desvalorização do trabalho de cuidado
Sobre os números da violência contra mulher
https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/