Jesus Cristo de era de Esquerda ou de Direita?

Tiago Zapater

Ser de esquerda ou ser de direita, hoje, não é, sequer, o mesmo que nos anos 2000, quando nem pegava muito bem ser uma coisa ou outra, ou aderir a pacotes completos de ideias. Como então pretender explicar o pensamento de Jesus Cristo, que viveu há mais de 2000 anos, como sendo de esquerda ou de direita?

Quem quer que queira explicar o pensamento de Jesus Cristo, usando conceitos como esquerda ou direita, precisará criar não só a sua versão de esquerda e de direita, como também uma versão particular do cristianismo. Foi o que fez um desses bispos-político-empresário da Igreja Universal. Nem esperou o início das campanhas para, em texto oficial da Igreja Universal, ajustar o cabresto: cristão de verdade não é e não pode ser de esquerda.

Para o Bispo, a esquerda teria uma visão sobre temas como família, democracia, Deus e paz, oposta à visão do cristianismo. Curiosamente, em 2001, a Igreja Universal apoiou a candidatura de Lula à presidência. Teria o cristianismo mudado nesses últimos 20 anos? A esquerda era cristã e deixou de ser? O que se passou?

A realidade é que nem a esquerda é aquilo que o Bispo diz que é, nem o cristianismo é aquilo que o Bispo diz ser. Existem muitas visões diferentes, tanto do cristianismo, quanto no cristianismo; assim como visões da e na esquerda. Assim, não é de se espantar que, com o crescimento das religiões evangélicas, se veja cada vez mais uma esquerda que se assume evangélica e evangélicos que se assumem de esquerda. E por que não poderiam? Jesus Cristo realmente condenaria o pensamento de esquerda?

A Bíblia contém textos produzidos desde 1500 anos antes do nascimento de Cristo, até textos produzidos 110 anos depois, escritos por mais de 40 autores, de diferentes nacionalidades e épocas. Há, ainda, imensas disputas sobre as traduções e interpretações.  

As palavras de Jesus, na Bíblia, são aquelas atribuídas a ele pelos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João que, em certa medida, foram testemunhas mais ou menos diretas dos acontecimentos (outros evangelhos ficaram de fora da edição final). Além dos evangelhos, há, grosso modo, uma coletânea das leis costumeiras do povo hebreu, na forma de sermões, discursos (êxodo, levítico, deuteronômio etc.), profecias e poesia (salmos e  provérbios); e, no Novo Testamento, narrativas da vida dos apóstolos, profecia do apocalipse e, de grande importância, as cartas de Paulo de Tarso, consideradas uma primeira interpretação escrita do cristianismo.

Foi necessário um enorme trabalho de edição e curadoria, ao longo de séculos, para escolher quais evangelhos, livros, epístolas etc. seriam considerados ou não na versão oficial. Contudo, embora possa haver (e há) muito debate sobre as escolhas do conteúdo da edição final da Bíblia, creio que não há dúvidas sobre o papel central das palavras de Jesus para o cristianismo.

Somando tudo, há 31.426 palavras de Jesus na Bíblia (um discurso total de quatro horas). A Bíblia inteira possui coisa de 800.000 palavras, ou seja, as palavras de Jesus são menos de 5% da Bíblia. Será que o próprio Jesus aprovaria todas as escolhas do material selecionado e as interpretações que tentam dar coerência ao todo? Ou será que ele diria algo como “vamos focar no essencial da mensagem“?

Talvez Jesus aprovasse todas as cartas de Paulo, inclusive aquela que diz que “as mulheres devem ficar caladas nas assembleias” (Coríntios 14,34-35), ou as restrições alimentares do Velho Testamento, como a proibição de comer carne de porco (Levíticos 11;07) e frutos do mar (Levíticos 11;12), mas talvez não.

Há uma nota ao final do post explicando um pouco da discussão sobre a validação ou não das leis do Velho Testamento por Jesus. Mas, a par do debate teológico, se eu fosse cristão e estivesse em dúvida sobre “o essencial da mensagem“, buscaria as palavras de Jesus, mais do que o Levítico, Deuteronômio ou as cartas de Paulo (que, embora seja considerado o maior intérprete do cristianismo, não conviveu com Cristo).

Ao catolicismo isso pode soar como falta de humildade (querer entender Jesus melhor que Paulo?), mas o fato é que, lendo os evangelhos, se vê que Jesus Cristo nunca disse nada sobre homossexualidade, uso de drogas (nem álcool) e formas de governo. São temas que podem ser extraídos da Bíblia como um todo, mas não das palavras de Jesus.

Mesmo a visão de Jesus sobre a família não era assim tão tradicional, considerando a família da época:

Naquele tempo: Enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo.” Jesus perguntou àquele que tinha falado: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” (Mateus 12, 46-50).

Há algo parecido no trecho em que Jesus, na cruz, olha para sua mãe e para um discípulo que estavam próximos e diz “à sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho; Depois disse ao discípulo: eis aí tua mãe” (João 19:26-27).

Jesus amplia o conceito de família: não se trata mais do laço de sangue, origem ou de amizade (família estendida), mas de um laço espiritual. Um pensamento revolucionário, e não tradicional, sobre a família.

É certo que Jesus reconhece, na união homem-mulher, uma natureza divina, mas o faz para sustentar contra o Velho Testamento, que o divórcio era inadmissível (Marcos 10, 4-12), e não para condenar qualquer outro relacionamento amoroso. Jesus também diverge das antigas leis no episódio da mulher adúltera, quando os acusadores lhe dizem: “Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando e, na lei, nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?” (João, 8:1-4). Ninguém jogou a primeira pedra e Jesus, afastando a lei do Velho Testamento, não a condenou.

Ora, reconhecer santidade na união homem-mulher não implica condenar outras uniões, como as homossexuais. Em termos lógicos, não implica, sequer, negar que outras formas de união possam também estar de acordo com a vontade divina. Esse tipo de condenação pode ser extraída de passagens do Velho Testamento e das cartas de Paulo aos Romanos, mas Jesus não parece autorizar que se leve as leis antigas com muito rigor, e Paulo não foi um discípulo direto, nem testemunha de Jesus em vida, não faltando quem o tenha criticado como intérprete do cristianismo.

Mas, se no campo dos costumes não parece possível acusar Jesus de conservadorismo, no campo da economia, há passagens bastante expressivas sobre o acúmulo de capital. Por exemplo:

“Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Mateus 19:16-30)  

“Se queres ser perfeito, vai vender tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois vem seguir-me” (Mateus 19:21)

Não acho que isso permita dizer que Jesus Cristo era de esquerda. Jesus lidava com problemas de outra natureza, como o fim do mundo, o advento de um novo e a salvação das almas. Os meios de produção não parecem estar em discussão. Mas o próprio Engels (coautor do Manifesto Comunista) reconhece:

“tanto o Cristianismo como o socialismo dos operários pregam a iminente salvação da escravidão e da miséria; o Cristianismo coloca a salvação numa vida futura, posterior à morte, no céu. O Socialismo coloca-a neste mundo, numa transformação da sociedade (…)”.

Assim, ainda que Jesus Cristo não possa ser visto como de esquerda, a esquerda não tem como negar seus fundamentos cristãos, senão os metafísicos, ao menos aqueles terrenos. De outro lado, acho difícil ver no cristianismo aquela perspectiva marcadamente individualista da liberdade e da propriedade, que caracteriza o pensamento da direita.    

De todo modo, a Igreja Universal tem razão quando acusa a esquerda de dividir o mundo entre ricos e pobres e apontar essa diferença como uma injustiça. Mas isso não parece estar em contraposição à visão de Jesus Cristo, para quem, dificilmente os ricos entrarão no reino dos céus.

Por fim, ainda que Jesus pregasse uma mensagem de paz e união, fez certas concessões, por exemplo, para lidar com o pessoal que misturava religião com negócios. Virou as mesas e expulsou quem vendia e comprava no templo: “A minha casa será chamada casa de oração; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões’“. (Mateus 21;12 e 21;13).

Para Saber Mais

Jesus revogou o antigo testamento?

Em Mateus 5:17-18 Jesus diz que não veio para revogar a lei antiga (velho testamento), mas para fazê-la cumprir. Contudo, há divergências interessantes, inclusive na tradução. Algumas versões em inglês da Bíblia, traduzindo o original do aramaico e do grego, usam as palavras “destroy” em vez de “revogar” e fulfill, em vez de “cumprir“. Jesus não faria aqui, portanto, uma referência técnico-jurídica sobre revogar uma lei antiga e garantir sua obediência. O que ele faz é negar acusações de que estaria distorcendo (“destroy”) a legislação judaica e garantindo que veio realizar (fulfill) as profecias. Como judeu, Jesus conhecia as leis antigas e, muitas vezes diz que elas devem ser seguidas mas, como visto no texto, também fez exceções. De todo modo, parece difícil, sem um passo de fé na inspiração divina de toda a Bíblia (e, portanto, da sua edição por homens), falar em uma espécie de validação ou confirmação das leis antigas na mensagem de Jesus Cristo.  

https://www.bibleref.com/Matthew/5/Matthew-5-17.html

A recomendação de voto da Igreja Universal

https://www.universal.org/noticias/post/5-motivos-que-mostram-que-e-impossivel-ser-cristao-e-ser-de-esquerda/

Um resumo do clima Esquerda vs. Direita nos anos 2000 e a Terceira Via

https://www.sabedoriapolitica.com.br/economia-politica/terceira-via/

Apoio da Universal à campanha de Lula em 2001

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0810200241.htm

A esquerda evangélica

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/05/evangelicos-de-esquerda-lancam-iniciativa-para-monitorar-representantes-no-executivo-e-judiciario.shtml

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/09/09/contra-neopentecostais-1-bancada-evangelica-de-esquerda-se-lanca-em-2020.htm

Sobre a formação da Bíblia

https://pt.wikipedia.org/wiki/B%C3%ADblia

As palavras de Jesus são menos de 5% da Bíblia

https://www.quora.com/How-many-words-of-Jesus-are-quoted-in-the-Gospels-How-long-would-it-take-to-read-all-those-words

https://www.abiblia.org/ver.php?id=418

Críticas a Paulo como intérprete do cristianismo

“(…) A ‘boa nova’ foi seguida rente aos calcanhares pela ‘péssima nova’: a
de Paulo. Paulo encarna exatamente o tipo oposto ao ‘portador da boa nova’;
representa o gênio do ódio, a visão do ódio, a inexorável lógica do ódio. O
que esse disangelista não ofereceu em sacrifício ao ódio! Acima de tudo, o
Salvador: ele pregou-o em sua própria cruz. A vida, o exemplo, o
ensinamento, a morte de Cristo, o significado e a lei de todo o Evangelho,
nada disso restou após esse falsário, com seu ódio, ter reduzido tudo ao que
lhe tivesse utilidade (…) A figura do Salvador, seus ensinamentos, seu estilo de vida, sua morte, o significado de sua morte, mesmo as conseqüências de sua morte, nada permaneceu intocado, nada permaneceu sequer semelhante à realidade”. (Nietzsche, O Anticristo, p. 39).

Para um resumo da visão individualismo, liberdade e propriedade, com indicação de bibliografia:

Engels e Luxemburgo sobre o cristianismo:

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