• Bolsonaro está nu

    Bolsonaro está nu

    Tiago Zapater

    Só eu vi Bolsonaro nu?

    Na reunião, gritando  com seus ministros “não vou deixar foder minha família, meus amigos, troco diretor, se não puder, troca superintendente, se não puder eu troco o ministro“?

    Trocando quatro vezes o diretor da PF, até fazer a PF concluir que não houve interferência dele na PF? Debochando do combate à corrupção com a pérola “eu acabei com a lava-jato“?

    Comprando apoio parlamentar com o orçamento secreto, teatralmente vetado pelo presidente, enquanto a bancada bolsonarista na Câmara aprovava?

    Rindo e brincando no meio da pandemia? Fazendo pouco caso das mortes (“não sou coveiro“; “e daí“) ?

    Falando contra o uso de máscaras? Negando a ciência, quando a ciência era inconveniente? Só eu vi Bolsonaro dizendo que não ia comprar vacina? Dizendo às pessoas que não se vacinassem, ou poderiam “virar um jacaré“?

    Só eu lembro que se não fosse João Dória a vacina talvez nem viesse…?

    Só eu vi a educação no lixo? As taxas imensas de evasão escolar? A piora em todos os níveis? A paralisia no MEC e o assalto generalizado ao orçamento da educação?

    Só eu vi Ricardo Velez, Arthur Weintraub e Milton Ribeiro em uma sucessão de trapalhadas, incompetência e corrupção?

    Quão grave não é a corrupção no MEC para Bolsonaro, após dizer que botaria a cara no fogo pelo ministro, precisar mandar o cara embora?  

    Só eu vi que Bolsonaro tem um projeto de aumentar o desmatamento? O garimpo ilegal? A grilagem de terras? Passar a boiada?

    Bolsonaro demitiu:

    O comando das forças armadas, porque não quiseram apoiar seu projeto golpista. Os diretores da Polícia Federal que não concordavam com interferência do governo. Demitiu 20 delegados da Polícia Federal. O diretor do INPE, porque não gostou dos dados sobre desmatamento. Presidentes da Petrobrás que não concordaram com a interferência no preço dos combustíveis. Presidentes do INEP que não concordaram com a interferência no Enem. Diretores do BNDES, porque não inventaram uma caixa-preta a ser aberta. Demitiu o presidente da FUNAI, porque este não era suficientemente contra os indígenas. Demitiu a presidente do IBAMA.

    Essa é a democracia de Bolsonaro ? Que não reconhece nenhum freio e nenhum contrapeso ao seu poder? Que exige instituições servis?

    Bolsonaro governa na base de ameaças: “se esticar a corda…“; “se as eleições não forem limpas“; “não queremos sair das quatro linhas, mas se esticar a corda…“. Quem exerce poder com base em ameaças, se não criminosos?

    Bolsonaro falou que, se o Supremo não “baixar a temperatura“, ele aumentará o número de ministros, para forjar uma maioria que evite que a aplicação da justiça desagrade o governo. Sem tirar nem por, exatamente o que Maduro fez na Venezuela.

    Esse é um presidente que ameaça um tribunal porque esse tribunal decide contra ele: ou você começa a decidir como eu quero, ou vai sofrer as consequências.

    Bolsonaro está nu e todo mundo pode ver.

    Não existe nenhuma dúvida sobre o que ele é, representa e oferece. Não existem mais máscaras disponíveis, estamos todos nus. A questão é se podemos conviver nus.

    Epílogo – e o Lula? e o PT?

    Para acreditar na culpa de Lula, é preciso acreditar em Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, que colheram, produziram e interpretaram as provas. As tais três instâncias que condenaram Lula confiaram que Moro trabalhou bem e com isenção. Deu no que deu. Já no âmbito do governo, do orçamento secreto ao MEC, nada indica que haja menos corrupção .

    E os religiosos, o que temem? E quem lhes disse para temer? Em 14 anos de governo do PT, nenhuma igreja foi fechada. Isso sequer foi, em algum momento qualquer, discutido, Nenhuma droga foi legalizada. Nenhuma proposta de legalização do aborto foi, sequer, discutida.

    E os moralistas, qual o critério? Lula foi casado por 40 anos com a mesma mulher e que, até onde consta, nunca foi sua amante nem recebeu depósitos esquisitos de gente como o Queiroz. É mais do que se pode dizer de Michele Bolsonaro.

    Convém lembrar que Lula nunca disse que usou dinheiro público para “comer gente” e não consta que tenha flertado com adolescentes ou prevaricado ao se deparar com o que acreditava ser prostituição infantil. É mais do que se pode dizer de Bolsonaro.

    Assim, o leitor exigente teria razão em perguntar se eu não vi nada também nos anos do governo Lula. Vi muitas coisas, mas, no final do dia, há apenas duas opções e só uma delas, quando teve a chance, governou democraticamente.  

    Para Saber Mais

    Sobre as várias demissões no governo Bolsonaro

    https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-ministros-funcionarios-alto-escalao-demitidos/

    https://www.novacana.com/n/etanol/politica/bolsonaro-demite-terceiro-presidente-petrobras-pouco-mais-40-dias-cargo-240522

    Governo Bolsonaro teria demitido ao menos 20 delegados em cargos de chefia na PF

  • O que é um governo autoritário?

    O que é um governo autoritário?

    Tiago Zapater

    Ainda em 1941, no calor da Segunda Guerra, o psicólogo e filósofo Erich Fromm escreveu um livro sobre a psicologia do nazismo, chamado Medo à Liberdade. O autor queria entender as motivações psicológicas e sociais para o fato, já naquela época consumado, da popularidade do nazismo.

    Embora os detalhes macabros do holocausto ainda estivessem em andamento, Hitler já era Hitler. Hitler nunca escondeu suas ideias. Seu livro-propaganda Mein Kampf havia sido lançado em 1925 e, em 1940, 6 milhões de cópias já tinham sido vendidas. Está tudo lá: supremacia racial, anti-semitismo, anti-marxismo (um capítulo inteiro intitulado “a luta com a frente vermelha” – cap. 7, v. II), nacionalismo expansionista, tomada do poder e ódio a imigrantes. Hitler já era, desde 1921, líder (Führer) do Partido Nazista, e a ideologia do partido se confundia com a do próprio Hitler.

    Ainda assim — ou, justamente por isso — o partido cresceu, ganhando milhares de novos membros, inclusive membros armados (4000 paramilitares). Sim, Hitler não desarmou a população para tomar o poder, como se lê às vezes internet afora. Por ter perdido a I Guerra, a Alemanha havia, já antes, sido obrigada a entregar imediatamente todas as armas. Hitler promoveu, a partir de 1928, um relaxamento nas leis de controle de armas, promovendo o armamento da população, em especial para “cidadãos de fidelidade inquestionável” (expressão da lei), o que incluía membros do Partido Nazista e excluía, expressamente, judeus, ciganos e outros grupos.

    Em 1932, o partido Nazista obteve a maior votação nas eleições gerais e, em 1933, Hitler foi, legalmente, nomeado chanceler. Daí para frente, farsa e tragédia. Em fevereiro, os nazistas culpam partidos de esquerda por um incêndio no prédio do parlamento e os parlamentares de oposição são proibidos de entrar no parlamento a partir de então (e de exercer qualquer oposição). Pouco depois, todos partidos são desmantelados e postos na ilegalidade. Em 14 de julho, uma lei decreta que a Alemanha é um estado de partido único, o nazista.

    Tudo isso contou com apoio geral da população. Mas por que tanta gente aderiu a um conjunto de ideias horríveis? O livro de Fromm explica que a escolha de se submeter ao autoritarismo pressupõe sempre uma relação de simbiose: o autoritário quer dominar os mais fracos, a quem despreza, e também quer ser dominado por alguém mais forte, ou uma força maior (Deus, pátria, família essas coisas). O autoritário abre mão de uma parte de seu ego (sua identidade) para se deixar ser definido por essa relação de domínio.

    Para o livro, a liberdade moderna, fundada na economia de mercado e na liberdade de religião, rompeu antigas amarras sociais, mas trouxe também uma profunda solidão, uma perda de conexão com o mundo. A submissão ao autoritarismo oferece um substituto daquela ligação com o mundo, que já não existe mais. O autoritário está buscando, na dominação, uma forma de se relacionar com as outras pessoas. O exercício dominação/submissão funciona bem porque satisfaz impulsos sadomasoquistas, trazendo segurança em um ambiente de inseguranças. O sadomasoquismo pode, ainda, muito facilmente, ser confundido e ocupar o lugar do amor, razão pela qual o autoritarismo é também uma forma de populismo. Um ambiente de extrema insegurança, desemprego, falta de perspectivas, como era a Alemanha após a I Guerra, é extremamente fértil para o surgimento de projetos de autoritarismo.

    O problema humano de fundo, diz o autor,  não é o de limites à liberdade — a vida sempre estará cheia de algum tipo de limitação da liberdade –,  mas da solução da solidão. Para tanto, há alternativas, como o amor, solidariedade e criação, essencialmente artística, que são modos de se exercer uma liberdade positiva, isto é, uma liberdade para (realizar potenciais) e não apenas uma liberdade de (limitações). Essa liberdade positiva, de realizar potenciais, cumpre a função de restabelecer a conexão com o mundo (o que o autoritarismo apenas aparenta fazer). Essa conexão e essa liberdade só é realmente possível quando reconhecemos no outro um igual, alguém tão cheio de potenciais a serem realizados como nós mesmos.

    Isso é impossível na relação fundada no autoritarismo porque, segundo o autor, o autoritário, “baseado em seus anelos sadomasoquistas, (…) só experimenta dominação ou submissão, nunca porém solidariedade. As diferenças, seja de sexo ou de raça são, para ele, indícios necessariamente de superioridade ou inferioridade. Uma diferença que não tenha esta conotação é-lhe inimaginável” (Medo à Liberdade, p. 141).   

    Um autoritário irá tipicamente se opor a projetos e ideias de inclusão e diversidade. O autoritário só pode pensar diferenças em termos de superior/inferior, porque essa é a premissa para a relação de dominação/submissão que orienta sua visão de mundo. Para o autoritário, inclusão permite que pessoas inferiores sejam colocadas em uma posição de falsa igualdade com pessoas superiores. Pouco importa, aqui, se o autoritário acredita que a inferioridade é resultado de nascimento (raça, gênero) ou das estruturas sociais, o problema é como ele vê as diferenças. Uma organização (escola, empresa, comunidade, estado etc.) preocupada em realizar potenciais busca efetiva diversidade entre seus membros não para cumprir quotas de uma igualdade formal, mas porque se beneficia em ter diferentes histórias de vida e visões de mundo.

    Algo parecido vale para o valor da criação. O potencial criativo reconecta o homem ao mundo e realiza também aquele aspecto positivo da liberdade (liberdade para). Criar, sempre, é para os outros (ainda que esses outros estejam só na cabeça de quem cria) e em um mundo onde há outros. A criação oferece uma visão de mundo e esse oferecimento pressupõe um reconhecimento do outro, que reconecta o homem ao mundo. Arte e cultura são fundamentais nesse caminhar. O autoritário, por sua vez,  “cultua o passado; o que já foi será eternamente. Desejar algo ou trabalhar por algo que ainda não houve é crime ou loucura. O milagre da criação – e a criação é sempre um milagre – escapa ao campo de sua experiência emocional” (Medo à Liberdade, p. 139).

    Para o autoritário, a relação superior/inferior precisa estar legitimada em uma ordem natural das coisas, uma ordem, por excelência, hierárquica e atemporal: sempre foi, sempre será. O autoritário, quando fala em revolução, é para voltar a um passado que, na visão dele, nunca deveria ter cessado de existir. Todo projeto político autoritário constrói um passado mítico para legitimar a dominação no presente. A dominação raramente se legitima como fruto de uma nova visão de mundo.

    Em termos políticos, liberdade positiva (liberdade para) pressupõe democracia, pois pressupõe a inclusão de todos em suas individualidades. Muito mais do que o rito das eleições, democracia exige a convivência de diferentes visões de mundo, projetos de país, alternância no poder e respeito aos direitos fundamentais. A democracia exige caminhar com os olhos para o futuro, porque o ocupante do poder, em uma democracia, é sempre temporário. Não é um governo para maiorias, mas para todos.

    Em época de eleições, fica a sugestão ao leitor de identificar o caráter autoritário ou não diferentes projetos oferecidos a partir do modo como valorizam ou não as diferenças e a criação. 

    Para Saber Mais

    Medo à Liberdade (Erich Fromm)

    Usei aqui a 14ª ed. da Editora Ltc. As páginas referidas são dessa edição.

    Sobre a ascensão de Hitler e do partido nazista

    Enciclopédia do Holocausto do Museu do Holocausto nos Estados Unidos, disponível em português em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/adolf-hitler#:~:text=Adolf%20Hitler%20foi%20o%20l%C3%ADder,julgamento%20trouxe%20fama%20e%20seguidores

    Sobre a falácia de um Hitler desarmamentista

    https://web.archive.org/web/20130112184532/https://www.motherjones.com/mojo/2013/01/hitler-stalin-gun-control

    “Response to Bernard E. Hard E. Harcourt’s On Gun Registers On Gun Registration, the NRA, action, the NRA, Adolf Hitler, and Nazi Gun Laws: Exploding the Gun Culture Wars (A Call to Historians)” – Deborah Homsher. Disponível em https://ir.lawnet.fordham.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://en.wikipedia.org/&httpsredir=1&article=4031&context=flr

    Sobre as vendas de Mein Kampf

    https://www.history.com/this-day-in-history/mein-kampf-is-published

    Adolf Hitler: Tax-payer publicado no The Americal Historical Review, julho de 1955, Oron James Hale.

    Sobre livro Mein Kampf

    O livro entrou para o domínio público em 2015 e várias editoras, inclusive no Brasil, buscaram relançar. Houve, contudo, uma proibição judicial ao livro impresso. O e-book do livro, com comentários de um historiador, pode ser encontrado:  

    Há uma versão online em inglês aqui:

    https://mondopolitico.com/library/meinkampf/v2c7.htm

    Minha opinião sobre a leitura de Mein Kampf:

    Li alguns trechos do livro e a análise que o próprio Erich Fromm faz dele, com várias transcrições. Ainda pendente minha leitura completa (mais de 600 páginas…) arrisco dizer que deveria ser leitura obrigatória (sempre com os devidos avisos e orientações, como foi o caso da versão comentada lançada no Brasil e proibida). A semelhança do discurso de Hitler com várias das ideias em circulação na política atual é impressionante e me faz perguntar se há outros interesses na proibição da obra.

    Sobre a imagem destacada

    Quadro “O Enigma de Hitler”, de Salvador Dali:

    https://historia-arte.com/obras/el-enigma-de-hitler

  • Fatos e Afeto nas Eleições

    Fatos e Afeto nas Eleições

    Tiago Zapater

    O Zapaterismo acredita que, nas eleições, assim como em todo o resto, não escolhemos racionalmente nossos candidatos. Escolhemos para uma plateia de memórias que vive na nossa própria cabeça. O subconsciente opera em segundo plano, ecoando coisas do tipo: “votar em Lula agradaria a minha mãe“; ou “votar no Bolsonaro vai mostrar para o meu pai que ele não manda em mim“. Há quem se ache imune à influência do próprio subconsciente, mas essas pessoas estão erradas. Pergunte ao seu terapeuta e ele vai confirmar: política é muito mais afeto do que lógica.

    No entanto, apesar de escolhermos pelo afeto, defendemos nossas escolhas racionalmente, com base em fatos e na lógica. Isso garante certo nível de civilidade nas discussões, dispensando, por exemplo, o porte de arma para defender seu candidato.

    Mas quais são os fatos importantes ? Essa escolha (sempre ela) passa também pelos afetos, mas procurar fatos já é meio caminho andado. Como sempre, os links para os fatos e dados mencionados aqui estão ao final do post.

    Para as eleições de agora, temos muitos fatos, pois, mais do que promessas, carisma e ideologia, os dois principais candidatos têm no currículo as realizações dos respectivos governos. Ainda que as conjunturas econômicas em cada época sejam diversas, não estão tão distantes. Se Lula pegou a crise financeira de 2008 (famosa marolinha), Bolsonaro pegou a pandemia da COVID-19 (famosa gripezinha). Lula se aproveitou da alta do valor das commodities em 2006-2008, e Bolsonaro da alta de 2021.

    Bolsonaro herdou uma economia muito pior do que Lula, com muito mais dívidas e despesas. Ainda assim, em 2007 o governo Lula contou com uma receita de 1,5 trilhões de reais que, atualizado para 2020, seria uns 3 trilhões. Em 2020, ano da pandemia, o governo Bolsonaro contou com uma receita de, aproximadamente, 3,5 trilhões de reais, ou seja, do ponto de vista das receitas, Bolsonaro em 2020 tinha mais dinheiro para gastar do que Lula em 2007.

    E, com suas conjunturas, o que cada um conseguiu entregar?

    É muito difícil, mesmo entre bolsonaristas, encontrar alguém que diga que o governo Lula não fez nada. A lista é grande: redução da fome, redução da pobreza, acesso à educação, redução da desigualdade, redução do desmatamento, redução do desemprego e crescimento econômico. Não foi por acaso que Lula terminou o mandato com 80% de aprovação.

    Por isso, as críticas ao governo Lula costumam estar não na falta de resultados, mas no que se vê como o custo desses resultados: corrupção e endividamento público. O que se diz é que estaríamos hoje pagando a conta dos anos de bonança do governo Lula.

    Mas, nos números, é muito difícil confirmar a tese de que Lula entregou um Brasil quebrado e endividado.

    Quando Lula assumiu a presidência, a dívida pública do Brasil era de 59,93% do PIB. Em 2010, no final do governo Lula, essa dívida (incluindo dívidas das estatais) era de 37,98% do PIB. Ou seja, os ganhos sociais obtidos no governo Lula não se deram às custas da criação de dívidas.

    Além disso, as reservas de dólares aumentaram. Lula recebeu o país com 30 bilhões de dólares em reservas internacionais e entregou com 350 bilhões. A renda per capita cresceu 23,05% e a inflação caiu de 12,5% para 5,9%. O desemprego caiu de 10,5% para 5,3%. Não só a economia foi bem, como houve efetiva melhora nas condições de vida da população. Como seria possível entregar tudo isso (inclusive dinheiro para as reservas), não aumentar dívidas (nem das estatais) e, ao mesmo tempo, quebrar o país?

    Daí porque, para outros críticos, o problema não é tanto a conta que Lula deixou, mas o fato de que o Brasil não cresceu tanto quanto outros países da região. Ou seja, “o governo Lula não foi bom porque poderia ter sido melhor“. Um argumento ruim, assim como dizer que “o governo Bolsonaro é bom porque poderia ter sido pior“. Não é uma competição e quem passa fome não está melhor porque na Venezuela se passa mais fome.

    Mas e os resultados do governo Bolsonaro?

    Com a proximidade das eleições, o governo produziu algumas compilações oficiais para uso na campanha. Além do auxílio Brasil, essas realizações envolvem, na sua maioria (i) privatizações; (ii) regulação do ambiente de negócios (marco legal do saneamento, lei da liberdade econômica, marco legal start ups, marco telecom, marco ferrovias etc.); (iii) obras de infraestrutura; e (iv) redução de impostos.

    Redução de impostos, marcos regulatórios, privatizações e obras podem melhorar a vida das pessoas? A cartilha liberal até diz que sim, mas, no campo dos resultados (vida das pessoas), ainda não se vê nenhuma melhora. 30 milhões de pessoas passam fome. 10 milhões estão desempregados. Ao que tudo indica, aquilo que Bolsonaro chama de realizações são, na verdade, iniciativas e não resultados. Em nenhum momento os resultados envolvem redução da pobreza, redução da fome, redução da evasão escolar, redução da mortalidade infantil, aumento dos jovens em universidades etc..

    Para Bolsonaro, parece que o próprio conceito do que seria uma realização é diferente e não inclui a melhora na vida das pessoas. A estratégia de Bolsonaro parece ser melhorar o ambiente de negócios e deixar o resultado acontecer por si. Defende-se a “liberdade para trabalhar” (até sob risco de vida, na pandemia), mas não importa se o salário é baixo, se a comida é cara, se as condições de trabalho são precárias, se o trabalhador poderá se aposentar etc.. Cada um que se vire com a sua liberdade.

    No campo dos grandes números, é digno de nota que o crescimento acumulado do PIB, com Bolsonaro, deve ficar entre 4,7% e 5%, mantendo-se abaixo da média mundial durante todo o mandato. Nos anos Sarney, o crescimento do PIB foi de 22,72% e, em 8 anos de Lula, 32,62%.

    Se o leitor chegou até aqui, tem direito de perguntar: mas e a corrupção? Votar no Lula não é o mesmo que avalizar, ainda que em nome de resultados sociais, esquemas de corrupção?

    Antes de responder, convém refletir se é plausível a ideia de que a corrupção realmente diminuiu. Além dos escândalos do MEC e aberrações como o orçamento secreto, não faltam histórias mal investigadas, como a compra de vacinas superfaturadas e os esqueletos no armário da própria família presidencial (que vão de rachadinhas às ligações com milícias).

    É por isso que, quando se chega ao tema corrupção, há uma contradição difícil de resolver. Um governo que combata a corrupção vai encontrar mais casos de corrupção, inclusive no próprio governo, do que um governo que se declare honesto, mas não se empenhe tanto. A ideia de que, para acabar com a corrupção basta escolher candidatos honestos é, na melhor das hipóteses, ingênua, porque não dá para saber se um político, uma vez eleito, será honesto. Pode-se, quando muito, apostar que alguém que roubou no passado roubará de novo, mas quando nenhum dos candidatos tem um passado realmente limpo isso ajuda pouco.

    De outro lado, se a Polícia Federal, PGR, Ministério Público, CGU, Coaf e TCU funcionarem com autonomia e independência, ninguém precisará depender da honestidade do governante, bastam as instituições. Nesse aspecto, sobre o governo Lula, o próprio Sergio Moro reconheceu, naquela sentença do triplex:

    “É forçoso reconhecer o mérito do Governo do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fortalecimento dos mecanismos de controle, abrangendo a prevenção e repressão, do crime de corrupção, especialmente nos investimentos efetuados na Polícia Federal durante o primeiro mandato, no fortalecimento da Controladoria Geral da União e na preservação da independência do Ministério Público Federal mediante a escolha, para o cargo de Procurador Geral da República, de integrante da lista votada entre membros da instituição”. (pg. 186-187 da sentença do caso do triplex)

    Sérgio Moro

    Bolsonaro, por sua vez, teve o cuidado de colocar um cúmplice na PGR e interferiu na polícia federal até conseguir fazer o órgão concluir que não houve interferência. Sucateou e esvaziou competências de órgãos como COAF e CGU e, assim, encontrou pouca corrupção no seu governo, o que não quer dizer que não tenha havido (veja o MEC).

    Em todo voto aceitamos certos aspectos negativos de um candidato, porque apostamos nos positivos. Em um governo Lula, a corrupção será sempre uma preocupação. Em um novo governo Bolsonaro, corrupção será uma, entre muitas, preocupações.

    A história do PT mostra que, em vários momentos, o partido colocou a governabilidade acima da ética. A história de Bolsonaro mostra que ele colocou, acima da governabilidade (e acima da democracia), o próprio bolsonarismo.

    Quantas vezes Bolsonaro assumiu o risco de ser preso, ou de sofrer um impeachment — que, certo ou errado, seria desastroso para o país –, em troca de, absolutamente, nada, além da sua própria ideologia?

    Quem ganha alguma coisa quando o presidente se coloca contra a fiscalização ambiental? Contra a ONU? Quem ganha alguma coisa com um presidente que desafia o STF para defender o direito de um deputado sem noção falar bobagens? O que o país ganha com constantes brigas por pura ideologia?

    A troco de absolutamente nada para o país, Bolsonaro se tornou refém do centrão, para quem entregou nada menos que o próprio orçamento público.

    Não consigo imaginar nenhum candidato que me faria votar em Bolsonaro, e sei que isso é puramente afetivo. Quase todas pessoas de quem eu gosto e todas as que eu admiro, intelectualmente, são contra Bolsonaro. Eu não preciso de fatos e lógica para escolher Lula, mas, se precisar, estou bem abastecido.  

    Para Saber Mais

    Comparação das receitas do Brasil em 2007 e em 2020

    http://www.orcamentofederal.gov.br/orcamentos-anuais/orcamento-2007/lei-1/volumes/Volume_1.pdf

    https://sites.tcu.gov.br/contas-do-governo/06-orcamento-publico.html#:~:text=A%20Lei%20Or%C3%A7ament%C3%A1ria%20Anual%20referente,relativos%20a%20receitas%20de%20capital.

    Variação do preço das commodities

    https://www.cepea.esalq.usp.br/br/opiniao-cepea/o-que-esperar-dos-precos-das-commodities-alimenticias-nos-proximos-meses.aspx

    Resultados econômicos e sociais do governo Lula

    https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/05/160505_legado_pt_ru

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Governo_Lula#:~:text=O%20governo%20Lula%20registrou%20a,m%C3%A9dia%20de%202%2C8%25.

    Sobre a tese de que o PT quebrou o Brasil

    Evolução histórica do PIB Brasil vs Mundo

    As realizações de Bolsonaro

    https://www.entregasdogoverno.com/2022/02/balanco-do-governo-bolsonaro-principais.html

    Crescimento do PIB na era Bolsonaro

    https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php

    Economia global crescerá 5 vezes mais que brasileira em 2022, diz OCDE – BBC News Brasil

    Crescimento do PIB na era Sarney

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Governo_Sarney#:~:text=O%20governo%20Sarney%20registrou%20crescimento,entregou%20a%201972%2C91%25.

    Corrupção no governo Bolsonaro

    https://revistaforum.com.br/politica/2022/6/23/16-escndalos-de-corrupo-do-governo-bolsonaro-119158.html

    https://www.brasildefato.com.br/2019/12/09/na-contramao-do-discurso-eleitoral-bolsonaro-sufoca-estrutura-de-combate-a-corrupcao

    Combate do PT à corrupção, segundo Sergio Moro