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Bolsonaro está nu

Tiago Zapater
Só eu vi Bolsonaro nu?
Na reunião, gritando com seus ministros “não vou deixar foder minha família, meus amigos, troco diretor, se não puder, troca superintendente, se não puder eu troco o ministro“?
Trocando quatro vezes o diretor da PF, até fazer a PF concluir que não houve interferência dele na PF? Debochando do combate à corrupção com a pérola “eu acabei com a lava-jato“?
Comprando apoio parlamentar com o orçamento secreto, teatralmente vetado pelo presidente, enquanto a bancada bolsonarista na Câmara aprovava?
Rindo e brincando no meio da pandemia? Fazendo pouco caso das mortes (“não sou coveiro“; “e daí“) ?
Falando contra o uso de máscaras? Negando a ciência, quando a ciência era inconveniente? Só eu vi Bolsonaro dizendo que não ia comprar vacina? Dizendo às pessoas que não se vacinassem, ou poderiam “virar um jacaré“?
Só eu lembro que se não fosse João Dória a vacina talvez nem viesse…?
Só eu vi a educação no lixo? As taxas imensas de evasão escolar? A piora em todos os níveis? A paralisia no MEC e o assalto generalizado ao orçamento da educação?
Só eu vi Ricardo Velez, Arthur Weintraub e Milton Ribeiro em uma sucessão de trapalhadas, incompetência e corrupção?
Quão grave não é a corrupção no MEC para Bolsonaro, após dizer que botaria a cara no fogo pelo ministro, precisar mandar o cara embora?
Só eu vi que Bolsonaro tem um projeto de aumentar o desmatamento? O garimpo ilegal? A grilagem de terras? Passar a boiada?
Bolsonaro demitiu:
O comando das forças armadas, porque não quiseram apoiar seu projeto golpista. Os diretores da Polícia Federal que não concordavam com interferência do governo. Demitiu 20 delegados da Polícia Federal. O diretor do INPE, porque não gostou dos dados sobre desmatamento. Presidentes da Petrobrás que não concordaram com a interferência no preço dos combustíveis. Presidentes do INEP que não concordaram com a interferência no Enem. Diretores do BNDES, porque não inventaram uma caixa-preta a ser aberta. Demitiu o presidente da FUNAI, porque este não era suficientemente contra os indígenas. Demitiu a presidente do IBAMA.
Essa é a democracia de Bolsonaro ? Que não reconhece nenhum freio e nenhum contrapeso ao seu poder? Que exige instituições servis?
Bolsonaro governa na base de ameaças: “se esticar a corda…“; “se as eleições não forem limpas“; “não queremos sair das quatro linhas, mas se esticar a corda…“. Quem exerce poder com base em ameaças, se não criminosos?
Bolsonaro falou que, se o Supremo não “baixar a temperatura“, ele aumentará o número de ministros, para forjar uma maioria que evite que a aplicação da justiça desagrade o governo. Sem tirar nem por, exatamente o que Maduro fez na Venezuela.
Esse é um presidente que ameaça um tribunal porque esse tribunal decide contra ele: ou você começa a decidir como eu quero, ou vai sofrer as consequências.
Bolsonaro está nu e todo mundo pode ver.
Não existe nenhuma dúvida sobre o que ele é, representa e oferece. Não existem mais máscaras disponíveis, estamos todos nus. A questão é se podemos conviver nus.
Epílogo – e o Lula? e o PT?
Para acreditar na culpa de Lula, é preciso acreditar em Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, que colheram, produziram e interpretaram as provas. As tais três instâncias que condenaram Lula confiaram que Moro trabalhou bem e com isenção. Deu no que deu. Já no âmbito do governo, do orçamento secreto ao MEC, nada indica que haja menos corrupção .
E os religiosos, o que temem? E quem lhes disse para temer? Em 14 anos de governo do PT, nenhuma igreja foi fechada. Isso sequer foi, em algum momento qualquer, discutido, Nenhuma droga foi legalizada. Nenhuma proposta de legalização do aborto foi, sequer, discutida.
E os moralistas, qual o critério? Lula foi casado por 40 anos com a mesma mulher e que, até onde consta, nunca foi sua amante nem recebeu depósitos esquisitos de gente como o Queiroz. É mais do que se pode dizer de Michele Bolsonaro.
Convém lembrar que Lula nunca disse que usou dinheiro público para “comer gente” e não consta que tenha flertado com adolescentes ou prevaricado ao se deparar com o que acreditava ser prostituição infantil. É mais do que se pode dizer de Bolsonaro.
Assim, o leitor exigente teria razão em perguntar se eu não vi nada também nos anos do governo Lula. Vi muitas coisas, mas, no final do dia, há apenas duas opções e só uma delas, quando teve a chance, governou democraticamente.
Para Saber Mais
Sobre as várias demissões no governo Bolsonaro
https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-ministros-funcionarios-alto-escalao-demitidos/
Governo Bolsonaro teria demitido ao menos 20 delegados em cargos de chefia na PF
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O que é um governo autoritário?

Tiago Zapater
Ainda em 1941, no calor da Segunda Guerra, o psicólogo e filósofo Erich Fromm escreveu um livro sobre a psicologia do nazismo, chamado Medo à Liberdade. O autor queria entender as motivações psicológicas e sociais para o fato, já naquela época consumado, da popularidade do nazismo.
Embora os detalhes macabros do holocausto ainda estivessem em andamento, Hitler já era Hitler. Hitler nunca escondeu suas ideias. Seu livro-propaganda Mein Kampf havia sido lançado em 1925 e, em 1940, 6 milhões de cópias já tinham sido vendidas. Está tudo lá: supremacia racial, anti-semitismo, anti-marxismo (um capítulo inteiro intitulado “a luta com a frente vermelha” – cap. 7, v. II), nacionalismo expansionista, tomada do poder e ódio a imigrantes. Hitler já era, desde 1921, líder (Führer) do Partido Nazista, e a ideologia do partido se confundia com a do próprio Hitler.
Ainda assim — ou, justamente por isso — o partido cresceu, ganhando milhares de novos membros, inclusive membros armados (4000 paramilitares). Sim, Hitler não desarmou a população para tomar o poder, como se lê às vezes internet afora. Por ter perdido a I Guerra, a Alemanha havia, já antes, sido obrigada a entregar imediatamente todas as armas. Hitler promoveu, a partir de 1928, um relaxamento nas leis de controle de armas, promovendo o armamento da população, em especial para “cidadãos de fidelidade inquestionável” (expressão da lei), o que incluía membros do Partido Nazista e excluía, expressamente, judeus, ciganos e outros grupos.
Em 1932, o partido Nazista obteve a maior votação nas eleições gerais e, em 1933, Hitler foi, legalmente, nomeado chanceler. Daí para frente, farsa e tragédia. Em fevereiro, os nazistas culpam partidos de esquerda por um incêndio no prédio do parlamento e os parlamentares de oposição são proibidos de entrar no parlamento a partir de então (e de exercer qualquer oposição). Pouco depois, todos partidos são desmantelados e postos na ilegalidade. Em 14 de julho, uma lei decreta que a Alemanha é um estado de partido único, o nazista.
Tudo isso contou com apoio geral da população. Mas por que tanta gente aderiu a um conjunto de ideias horríveis? O livro de Fromm explica que a escolha de se submeter ao autoritarismo pressupõe sempre uma relação de simbiose: o autoritário quer dominar os mais fracos, a quem despreza, e também quer ser dominado por alguém mais forte, ou uma força maior (Deus, pátria, família essas coisas). O autoritário abre mão de uma parte de seu ego (sua identidade) para se deixar ser definido por essa relação de domínio.
Para o livro, a liberdade moderna, fundada na economia de mercado e na liberdade de religião, rompeu antigas amarras sociais, mas trouxe também uma profunda solidão, uma perda de conexão com o mundo. A submissão ao autoritarismo oferece um substituto daquela ligação com o mundo, que já não existe mais. O autoritário está buscando, na dominação, uma forma de se relacionar com as outras pessoas. O exercício dominação/submissão funciona bem porque satisfaz impulsos sadomasoquistas, trazendo segurança em um ambiente de inseguranças. O sadomasoquismo pode, ainda, muito facilmente, ser confundido e ocupar o lugar do amor, razão pela qual o autoritarismo é também uma forma de populismo. Um ambiente de extrema insegurança, desemprego, falta de perspectivas, como era a Alemanha após a I Guerra, é extremamente fértil para o surgimento de projetos de autoritarismo.
O problema humano de fundo, diz o autor, não é o de limites à liberdade — a vida sempre estará cheia de algum tipo de limitação da liberdade –, mas da solução da solidão. Para tanto, há alternativas, como o amor, solidariedade e criação, essencialmente artística, que são modos de se exercer uma liberdade positiva, isto é, uma liberdade para (realizar potenciais) e não apenas uma liberdade de (limitações). Essa liberdade positiva, de realizar potenciais, cumpre a função de restabelecer a conexão com o mundo (o que o autoritarismo apenas aparenta fazer). Essa conexão e essa liberdade só é realmente possível quando reconhecemos no outro um igual, alguém tão cheio de potenciais a serem realizados como nós mesmos.
Isso é impossível na relação fundada no autoritarismo porque, segundo o autor, o autoritário, “baseado em seus anelos sadomasoquistas, (…) só experimenta dominação ou submissão, nunca porém solidariedade. As diferenças, seja de sexo ou de raça são, para ele, indícios necessariamente de superioridade ou inferioridade. Uma diferença que não tenha esta conotação é-lhe inimaginável” (Medo à Liberdade, p. 141).
Um autoritário irá tipicamente se opor a projetos e ideias de inclusão e diversidade. O autoritário só pode pensar diferenças em termos de superior/inferior, porque essa é a premissa para a relação de dominação/submissão que orienta sua visão de mundo. Para o autoritário, inclusão permite que pessoas inferiores sejam colocadas em uma posição de falsa igualdade com pessoas superiores. Pouco importa, aqui, se o autoritário acredita que a inferioridade é resultado de nascimento (raça, gênero) ou das estruturas sociais, o problema é como ele vê as diferenças. Uma organização (escola, empresa, comunidade, estado etc.) preocupada em realizar potenciais busca efetiva diversidade entre seus membros não para cumprir quotas de uma igualdade formal, mas porque se beneficia em ter diferentes histórias de vida e visões de mundo.
Algo parecido vale para o valor da criação. O potencial criativo reconecta o homem ao mundo e realiza também aquele aspecto positivo da liberdade (liberdade para). Criar, sempre, é para os outros (ainda que esses outros estejam só na cabeça de quem cria) e em um mundo onde há outros. A criação oferece uma visão de mundo e esse oferecimento pressupõe um reconhecimento do outro, que reconecta o homem ao mundo. Arte e cultura são fundamentais nesse caminhar. O autoritário, por sua vez, “cultua o passado; o que já foi será eternamente. Desejar algo ou trabalhar por algo que ainda não houve é crime ou loucura. O milagre da criação – e a criação é sempre um milagre – escapa ao campo de sua experiência emocional” (Medo à Liberdade, p. 139).
Para o autoritário, a relação superior/inferior precisa estar legitimada em uma ordem natural das coisas, uma ordem, por excelência, hierárquica e atemporal: sempre foi, sempre será. O autoritário, quando fala em revolução, é para voltar a um passado que, na visão dele, nunca deveria ter cessado de existir. Todo projeto político autoritário constrói um passado mítico para legitimar a dominação no presente. A dominação raramente se legitima como fruto de uma nova visão de mundo.
Em termos políticos, liberdade positiva (liberdade para) pressupõe democracia, pois pressupõe a inclusão de todos em suas individualidades. Muito mais do que o rito das eleições, democracia exige a convivência de diferentes visões de mundo, projetos de país, alternância no poder e respeito aos direitos fundamentais. A democracia exige caminhar com os olhos para o futuro, porque o ocupante do poder, em uma democracia, é sempre temporário. Não é um governo para maiorias, mas para todos.
Em época de eleições, fica a sugestão ao leitor de identificar o caráter autoritário ou não diferentes projetos oferecidos a partir do modo como valorizam ou não as diferenças e a criação.
Para Saber Mais
Medo à Liberdade (Erich Fromm)
Usei aqui a 14ª ed. da Editora Ltc. As páginas referidas são dessa edição.
Sobre a ascensão de Hitler e do partido nazista
Enciclopédia do Holocausto do Museu do Holocausto nos Estados Unidos, disponível em português em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/adolf-hitler#:~:text=Adolf%20Hitler%20foi%20o%20l%C3%ADder,julgamento%20trouxe%20fama%20e%20seguidores
Sobre a falácia de um Hitler desarmamentista
“Response to Bernard E. Hard E. Harcourt’s On Gun Registers On Gun Registration, the NRA, action, the NRA, Adolf Hitler, and Nazi Gun Laws: Exploding the Gun Culture Wars (A Call to Historians)” – Deborah Homsher. Disponível em https://ir.lawnet.fordham.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://en.wikipedia.org/&httpsredir=1&article=4031&context=flr
Sobre as vendas de Mein Kampf
https://www.history.com/this-day-in-history/mein-kampf-is-published
Adolf Hitler: Tax-payer publicado no The Americal Historical Review, julho de 1955, Oron James Hale.
Sobre livro Mein Kampf
O livro entrou para o domínio público em 2015 e várias editoras, inclusive no Brasil, buscaram relançar. Houve, contudo, uma proibição judicial ao livro impresso. O e-book do livro, com comentários de um historiador, pode ser encontrado:
Há uma versão online em inglês aqui:
https://mondopolitico.com/library/meinkampf/v2c7.htm
Minha opinião sobre a leitura de Mein Kampf:
Li alguns trechos do livro e a análise que o próprio Erich Fromm faz dele, com várias transcrições. Ainda pendente minha leitura completa (mais de 600 páginas…) arrisco dizer que deveria ser leitura obrigatória (sempre com os devidos avisos e orientações, como foi o caso da versão comentada lançada no Brasil e proibida). A semelhança do discurso de Hitler com várias das ideias em circulação na política atual é impressionante e me faz perguntar se há outros interesses na proibição da obra.
Sobre a imagem destacada
Quadro “O Enigma de Hitler”, de Salvador Dali:
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O último refúgio
Tempos atrás, passei por uma dessas discussões políticas que só são possíveis entre amigos. Perguntei a esse amigo meu, que elogiava o primeiro ano do governo Bolsonaro, o que estava melhor no país. Ele respondeu, e tento reproduzir suas palavras: “o patriotismo, o brasileiro agora é muito mais patriota do que antes”.
Não conseguimos prolongar muito a conversa, mas, como as discussões nunca terminam na minha cabeça, fiquei às voltas com a pergunta: o que significa ser patriota? Qual o lugar, no mundo de hoje, do patriotismo, estranhamente ausente das discussões sobre liberdades e obrigatoriedades que envolvem a vacinação, uso de máscara, distanciamento social e fechamento do comércio?
No Manual de Campanha do Exército Brasileiro, documento oficial insuspeito de comunismo, encontrei uma definição: “O patriota coloca os interesses do País acima dos particulares, sendo capaz de renúncias e sacrifícios em prol do cumprimento de objetivos que contribuam para o crescimento de sua comunidade e de sua sociedade“.
Ser patriota, portanto, pela definição do Exército, tem mais a ver com uma forma de se relacionar com os interesses da coletividade do que com comportamentos específicos. Para o patriota, não importa se ele (ou ela!) concorda ou não com os interesses do País, pois ele é capaz colocar os “interesses do País acima dos particulares“, inclusive quando isso exigir “renúncias e sacrifícios” dos seus próprios interesses.
No Brasil, contudo, a maior parte dos patriotas passa a vida toda sem ter a oportunidade de fazer “renúncias e sacrifícios” em prol dos interesses coletivos. Apresentar-se ao serviço militar, por exemplo, é obrigatório, mas a maioria é dispensada de servir (em 2019, de 1,6 milhões de jovens que completaram 18 anos, só 90 mil foram incorporados às Forças Armadas). Para aqueles que servem, guerras efetivas são muito raras. Temos, ainda, a obrigação de votar e de pagar impostos, mas ambas podem ser ignoradas (e são) sem maiores consequências.
Até que veio a pandemia.
Uma pandemia é uma oportunidade de ouro para as renúncias que o patriotismo exige. Podemos comparar com uma guerra. Em uma guerra, para além dos soldados, há o esforço de guerra da população, há expropriação e confisco de bens, impostos extraordinários, toque de recolher, controle rígido da informação etc..
A pandemia exige muito menos. Usar máscara, distanciamento social e, em muitos casos, fechar ou limitar o comércio e o turismo, prejudicando o ganha-pão de muitos. Ainda assim, são exigências reais de renúncias e sacrifícios.
Na pandemia, assim como nas guerras, há muito medo e incertezas, que põem em dúvida a necessidade dessas renúncias e sacrifícios. Será que a ameaça é real? O esforço de guerra é realmente necessário ou a guerra é uma desculpa? Estamos adotando a melhor estratégia? Fizemos as alianças corretas?
Por isso, na guerra e na pandemia, informação e desinformação são peças importantes. Imaginem, em uma guerra, pessoas dizendo na internet e na TV que não há guerra, que não há invasão, que o Suriname não existe e coisas do tipo. Imaginem pessoas defendendo a liberdade de expressão para manifestar seu apoio ao lado inimigo, ameaçar comandantes do exército ou divulgar informações falsas sobre o horário dos bombardeios inimigos.
A pandemia, nesse sentido, é muito mais tolerante. Imagino que, em uma guerra, seríamos mais ágeis para bloquear sites, perfis, jornais e canais que propagassem desinformação, pois poderíamos chamá-los não de negacionistas, mas de traidores. Na pandemia, apesar das centenas de milhares de mortes, há paciência e um esforço grande para combater desinformação com informação: consórcio de imprensa, gestão dos dados, checagem de fatos, campanhas de informação etc..
Ainda assim, muitos patriotas foram vítimas das campanhas de desinformação e perderam a oportunidade de colaborar com o país, recusando-se, em nome de uma liberdade individual, a fazer sacrifícios mínimos, como usar máscara.
Até que veio a vacina, e uma nova oportunidade para o patriotismo!
O que pode ser melhor para um patriota, para mostrar sua capacidade de renúncias e sacrifícios em prol do País, do que algum risco de vida (embora menor do que a chance de uma queda de avião)?
O patriota poderia, ainda, cobrar o mesmo empenho dos seus compatriotas: vacinem-se! A lógica da vacinação, afinal, não é individual. A proteção não é binária (protegido/não-protegido), mas em probabilidades. E nem todos podem ser vacinados ou terão a mesma resposta imunológica à vacina. Ser o único vacinado em meio a uma multidão de infectados não é grande proteção, mas, com toda a população vacinada, as chances de infecção e transmissão, para todos, diminuem.
É como a ordem de apagar as luzes e fazer silêncio à noite, para evitar bombardeios inimigos; não adianta se você for o único da rua a seguir a orientação. E, mesmo com toda a desinformação que circula, o resultado fala por si: com a vacinação, os óbitos passaram de 3000/dia para 200.
No entanto, o verdadeiro patriota não precisa acreditar em dados. Pode escolher seus cientistas de preferência e duvidar de tudo o que estiver na mídia. Ao contrário, é até mais virtuoso se duvidar, pois, para quem acredita na ciência, a vacina não é nenhum sacrifício ou renúncia. Só pode se dizer patriota aquele que, mesmo sem acreditar na vacina, ou acreditando que haja mais riscos que benefícios, ainda assim, em prol do interesse do País, está disposto a sacrificar seu próprio interesse e se vacinar.
Felizmente, os números mostram que temos, entre nossos negacionistas, um imenso contingente de patriotas verdadeiros, dispostos a se vacinar, mesmo não acreditando na vacina. É o caso dos políticos, dos filhos do presidente e dos jornalistas anti-vacina, todos eles devidamente vacinados.
Tiago Zapater
Para saber mais:
Sobre a definição de patriota para o Exército Brasileiro:
Manual de Campanha C 20-10 – LIDERANÇA MILITAR, 2ª Edição, 2011, PORTARIA Nº 102-EME, DE 24 DE AGOSTO DE 2011. Disponível em : http://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/302/1/C-20-10.pdf Acesso em: 02 Set 2018.
Sobre o contingente de recrutados nas forças armadas:
Sobre uma das desapropriação ocorridas na Segunda Guerra