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Bolsonaro está nu

Tiago Zapater
Só eu vi Bolsonaro nu?
Na reunião, gritando com seus ministros “não vou deixar foder minha família, meus amigos, troco diretor, se não puder, troca superintendente, se não puder eu troco o ministro“?
Trocando quatro vezes o diretor da PF, até fazer a PF concluir que não houve interferência dele na PF? Debochando do combate à corrupção com a pérola “eu acabei com a lava-jato“?
Comprando apoio parlamentar com o orçamento secreto, teatralmente vetado pelo presidente, enquanto a bancada bolsonarista na Câmara aprovava?
Rindo e brincando no meio da pandemia? Fazendo pouco caso das mortes (“não sou coveiro“; “e daí“) ?
Falando contra o uso de máscaras? Negando a ciência, quando a ciência era inconveniente? Só eu vi Bolsonaro dizendo que não ia comprar vacina? Dizendo às pessoas que não se vacinassem, ou poderiam “virar um jacaré“?
Só eu lembro que se não fosse João Dória a vacina talvez nem viesse…?
Só eu vi a educação no lixo? As taxas imensas de evasão escolar? A piora em todos os níveis? A paralisia no MEC e o assalto generalizado ao orçamento da educação?
Só eu vi Ricardo Velez, Arthur Weintraub e Milton Ribeiro em uma sucessão de trapalhadas, incompetência e corrupção?
Quão grave não é a corrupção no MEC para Bolsonaro, após dizer que botaria a cara no fogo pelo ministro, precisar mandar o cara embora?
Só eu vi que Bolsonaro tem um projeto de aumentar o desmatamento? O garimpo ilegal? A grilagem de terras? Passar a boiada?
Bolsonaro demitiu:
O comando das forças armadas, porque não quiseram apoiar seu projeto golpista. Os diretores da Polícia Federal que não concordavam com interferência do governo. Demitiu 20 delegados da Polícia Federal. O diretor do INPE, porque não gostou dos dados sobre desmatamento. Presidentes da Petrobrás que não concordaram com a interferência no preço dos combustíveis. Presidentes do INEP que não concordaram com a interferência no Enem. Diretores do BNDES, porque não inventaram uma caixa-preta a ser aberta. Demitiu o presidente da FUNAI, porque este não era suficientemente contra os indígenas. Demitiu a presidente do IBAMA.
Essa é a democracia de Bolsonaro ? Que não reconhece nenhum freio e nenhum contrapeso ao seu poder? Que exige instituições servis?
Bolsonaro governa na base de ameaças: “se esticar a corda…“; “se as eleições não forem limpas“; “não queremos sair das quatro linhas, mas se esticar a corda…“. Quem exerce poder com base em ameaças, se não criminosos?
Bolsonaro falou que, se o Supremo não “baixar a temperatura“, ele aumentará o número de ministros, para forjar uma maioria que evite que a aplicação da justiça desagrade o governo. Sem tirar nem por, exatamente o que Maduro fez na Venezuela.
Esse é um presidente que ameaça um tribunal porque esse tribunal decide contra ele: ou você começa a decidir como eu quero, ou vai sofrer as consequências.
Bolsonaro está nu e todo mundo pode ver.
Não existe nenhuma dúvida sobre o que ele é, representa e oferece. Não existem mais máscaras disponíveis, estamos todos nus. A questão é se podemos conviver nus.
Epílogo – e o Lula? e o PT?
Para acreditar na culpa de Lula, é preciso acreditar em Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, que colheram, produziram e interpretaram as provas. As tais três instâncias que condenaram Lula confiaram que Moro trabalhou bem e com isenção. Deu no que deu. Já no âmbito do governo, do orçamento secreto ao MEC, nada indica que haja menos corrupção .
E os religiosos, o que temem? E quem lhes disse para temer? Em 14 anos de governo do PT, nenhuma igreja foi fechada. Isso sequer foi, em algum momento qualquer, discutido, Nenhuma droga foi legalizada. Nenhuma proposta de legalização do aborto foi, sequer, discutida.
E os moralistas, qual o critério? Lula foi casado por 40 anos com a mesma mulher e que, até onde consta, nunca foi sua amante nem recebeu depósitos esquisitos de gente como o Queiroz. É mais do que se pode dizer de Michele Bolsonaro.
Convém lembrar que Lula nunca disse que usou dinheiro público para “comer gente” e não consta que tenha flertado com adolescentes ou prevaricado ao se deparar com o que acreditava ser prostituição infantil. É mais do que se pode dizer de Bolsonaro.
Assim, o leitor exigente teria razão em perguntar se eu não vi nada também nos anos do governo Lula. Vi muitas coisas, mas, no final do dia, há apenas duas opções e só uma delas, quando teve a chance, governou democraticamente.
Para Saber Mais
Sobre as várias demissões no governo Bolsonaro
https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-ministros-funcionarios-alto-escalao-demitidos/
Governo Bolsonaro teria demitido ao menos 20 delegados em cargos de chefia na PF
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O que é um governo autoritário?

Tiago Zapater
Ainda em 1941, no calor da Segunda Guerra, o psicólogo e filósofo Erich Fromm escreveu um livro sobre a psicologia do nazismo, chamado Medo à Liberdade. O autor queria entender as motivações psicológicas e sociais para o fato, já naquela época consumado, da popularidade do nazismo.
Embora os detalhes macabros do holocausto ainda estivessem em andamento, Hitler já era Hitler. Hitler nunca escondeu suas ideias. Seu livro-propaganda Mein Kampf havia sido lançado em 1925 e, em 1940, 6 milhões de cópias já tinham sido vendidas. Está tudo lá: supremacia racial, anti-semitismo, anti-marxismo (um capítulo inteiro intitulado “a luta com a frente vermelha” – cap. 7, v. II), nacionalismo expansionista, tomada do poder e ódio a imigrantes. Hitler já era, desde 1921, líder (Führer) do Partido Nazista, e a ideologia do partido se confundia com a do próprio Hitler.
Ainda assim — ou, justamente por isso — o partido cresceu, ganhando milhares de novos membros, inclusive membros armados (4000 paramilitares). Sim, Hitler não desarmou a população para tomar o poder, como se lê às vezes internet afora. Por ter perdido a I Guerra, a Alemanha havia, já antes, sido obrigada a entregar imediatamente todas as armas. Hitler promoveu, a partir de 1928, um relaxamento nas leis de controle de armas, promovendo o armamento da população, em especial para “cidadãos de fidelidade inquestionável” (expressão da lei), o que incluía membros do Partido Nazista e excluía, expressamente, judeus, ciganos e outros grupos.
Em 1932, o partido Nazista obteve a maior votação nas eleições gerais e, em 1933, Hitler foi, legalmente, nomeado chanceler. Daí para frente, farsa e tragédia. Em fevereiro, os nazistas culpam partidos de esquerda por um incêndio no prédio do parlamento e os parlamentares de oposição são proibidos de entrar no parlamento a partir de então (e de exercer qualquer oposição). Pouco depois, todos partidos são desmantelados e postos na ilegalidade. Em 14 de julho, uma lei decreta que a Alemanha é um estado de partido único, o nazista.
Tudo isso contou com apoio geral da população. Mas por que tanta gente aderiu a um conjunto de ideias horríveis? O livro de Fromm explica que a escolha de se submeter ao autoritarismo pressupõe sempre uma relação de simbiose: o autoritário quer dominar os mais fracos, a quem despreza, e também quer ser dominado por alguém mais forte, ou uma força maior (Deus, pátria, família essas coisas). O autoritário abre mão de uma parte de seu ego (sua identidade) para se deixar ser definido por essa relação de domínio.
Para o livro, a liberdade moderna, fundada na economia de mercado e na liberdade de religião, rompeu antigas amarras sociais, mas trouxe também uma profunda solidão, uma perda de conexão com o mundo. A submissão ao autoritarismo oferece um substituto daquela ligação com o mundo, que já não existe mais. O autoritário está buscando, na dominação, uma forma de se relacionar com as outras pessoas. O exercício dominação/submissão funciona bem porque satisfaz impulsos sadomasoquistas, trazendo segurança em um ambiente de inseguranças. O sadomasoquismo pode, ainda, muito facilmente, ser confundido e ocupar o lugar do amor, razão pela qual o autoritarismo é também uma forma de populismo. Um ambiente de extrema insegurança, desemprego, falta de perspectivas, como era a Alemanha após a I Guerra, é extremamente fértil para o surgimento de projetos de autoritarismo.
O problema humano de fundo, diz o autor, não é o de limites à liberdade — a vida sempre estará cheia de algum tipo de limitação da liberdade –, mas da solução da solidão. Para tanto, há alternativas, como o amor, solidariedade e criação, essencialmente artística, que são modos de se exercer uma liberdade positiva, isto é, uma liberdade para (realizar potenciais) e não apenas uma liberdade de (limitações). Essa liberdade positiva, de realizar potenciais, cumpre a função de restabelecer a conexão com o mundo (o que o autoritarismo apenas aparenta fazer). Essa conexão e essa liberdade só é realmente possível quando reconhecemos no outro um igual, alguém tão cheio de potenciais a serem realizados como nós mesmos.
Isso é impossível na relação fundada no autoritarismo porque, segundo o autor, o autoritário, “baseado em seus anelos sadomasoquistas, (…) só experimenta dominação ou submissão, nunca porém solidariedade. As diferenças, seja de sexo ou de raça são, para ele, indícios necessariamente de superioridade ou inferioridade. Uma diferença que não tenha esta conotação é-lhe inimaginável” (Medo à Liberdade, p. 141).
Um autoritário irá tipicamente se opor a projetos e ideias de inclusão e diversidade. O autoritário só pode pensar diferenças em termos de superior/inferior, porque essa é a premissa para a relação de dominação/submissão que orienta sua visão de mundo. Para o autoritário, inclusão permite que pessoas inferiores sejam colocadas em uma posição de falsa igualdade com pessoas superiores. Pouco importa, aqui, se o autoritário acredita que a inferioridade é resultado de nascimento (raça, gênero) ou das estruturas sociais, o problema é como ele vê as diferenças. Uma organização (escola, empresa, comunidade, estado etc.) preocupada em realizar potenciais busca efetiva diversidade entre seus membros não para cumprir quotas de uma igualdade formal, mas porque se beneficia em ter diferentes histórias de vida e visões de mundo.
Algo parecido vale para o valor da criação. O potencial criativo reconecta o homem ao mundo e realiza também aquele aspecto positivo da liberdade (liberdade para). Criar, sempre, é para os outros (ainda que esses outros estejam só na cabeça de quem cria) e em um mundo onde há outros. A criação oferece uma visão de mundo e esse oferecimento pressupõe um reconhecimento do outro, que reconecta o homem ao mundo. Arte e cultura são fundamentais nesse caminhar. O autoritário, por sua vez, “cultua o passado; o que já foi será eternamente. Desejar algo ou trabalhar por algo que ainda não houve é crime ou loucura. O milagre da criação – e a criação é sempre um milagre – escapa ao campo de sua experiência emocional” (Medo à Liberdade, p. 139).
Para o autoritário, a relação superior/inferior precisa estar legitimada em uma ordem natural das coisas, uma ordem, por excelência, hierárquica e atemporal: sempre foi, sempre será. O autoritário, quando fala em revolução, é para voltar a um passado que, na visão dele, nunca deveria ter cessado de existir. Todo projeto político autoritário constrói um passado mítico para legitimar a dominação no presente. A dominação raramente se legitima como fruto de uma nova visão de mundo.
Em termos políticos, liberdade positiva (liberdade para) pressupõe democracia, pois pressupõe a inclusão de todos em suas individualidades. Muito mais do que o rito das eleições, democracia exige a convivência de diferentes visões de mundo, projetos de país, alternância no poder e respeito aos direitos fundamentais. A democracia exige caminhar com os olhos para o futuro, porque o ocupante do poder, em uma democracia, é sempre temporário. Não é um governo para maiorias, mas para todos.
Em época de eleições, fica a sugestão ao leitor de identificar o caráter autoritário ou não diferentes projetos oferecidos a partir do modo como valorizam ou não as diferenças e a criação.
Para Saber Mais
Medo à Liberdade (Erich Fromm)
Usei aqui a 14ª ed. da Editora Ltc. As páginas referidas são dessa edição.
Sobre a ascensão de Hitler e do partido nazista
Enciclopédia do Holocausto do Museu do Holocausto nos Estados Unidos, disponível em português em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/adolf-hitler#:~:text=Adolf%20Hitler%20foi%20o%20l%C3%ADder,julgamento%20trouxe%20fama%20e%20seguidores
Sobre a falácia de um Hitler desarmamentista
“Response to Bernard E. Hard E. Harcourt’s On Gun Registers On Gun Registration, the NRA, action, the NRA, Adolf Hitler, and Nazi Gun Laws: Exploding the Gun Culture Wars (A Call to Historians)” – Deborah Homsher. Disponível em https://ir.lawnet.fordham.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://en.wikipedia.org/&httpsredir=1&article=4031&context=flr
Sobre as vendas de Mein Kampf
https://www.history.com/this-day-in-history/mein-kampf-is-published
Adolf Hitler: Tax-payer publicado no The Americal Historical Review, julho de 1955, Oron James Hale.
Sobre livro Mein Kampf
O livro entrou para o domínio público em 2015 e várias editoras, inclusive no Brasil, buscaram relançar. Houve, contudo, uma proibição judicial ao livro impresso. O e-book do livro, com comentários de um historiador, pode ser encontrado:
Há uma versão online em inglês aqui:
https://mondopolitico.com/library/meinkampf/v2c7.htm
Minha opinião sobre a leitura de Mein Kampf:
Li alguns trechos do livro e a análise que o próprio Erich Fromm faz dele, com várias transcrições. Ainda pendente minha leitura completa (mais de 600 páginas…) arrisco dizer que deveria ser leitura obrigatória (sempre com os devidos avisos e orientações, como foi o caso da versão comentada lançada no Brasil e proibida). A semelhança do discurso de Hitler com várias das ideias em circulação na política atual é impressionante e me faz perguntar se há outros interesses na proibição da obra.
Sobre a imagem destacada
Quadro “O Enigma de Hitler”, de Salvador Dali:
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Jesus Cristo de era de Esquerda ou de Direita?

Tiago Zapater
Ser de esquerda ou ser de direita, hoje, não é, sequer, o mesmo que nos anos 2000, quando nem pegava muito bem ser uma coisa ou outra, ou aderir a pacotes completos de ideias. Como então pretender explicar o pensamento de Jesus Cristo, que viveu há mais de 2000 anos, como sendo de esquerda ou de direita?
Quem quer que queira explicar o pensamento de Jesus Cristo, usando conceitos como esquerda ou direita, precisará criar não só a sua versão de esquerda e de direita, como também uma versão particular do cristianismo. Foi o que fez um desses bispos-político-empresário da Igreja Universal. Nem esperou o início das campanhas para, em texto oficial da Igreja Universal, ajustar o cabresto: cristão de verdade não é e não pode ser de esquerda.
Para o Bispo, a esquerda teria uma visão sobre temas como família, democracia, Deus e paz, oposta à visão do cristianismo. Curiosamente, em 2001, a Igreja Universal apoiou a candidatura de Lula à presidência. Teria o cristianismo mudado nesses últimos 20 anos? A esquerda era cristã e deixou de ser? O que se passou?
A realidade é que nem a esquerda é aquilo que o Bispo diz que é, nem o cristianismo é aquilo que o Bispo diz ser. Existem muitas visões diferentes, tanto do cristianismo, quanto no cristianismo; assim como visões da e na esquerda. Assim, não é de se espantar que, com o crescimento das religiões evangélicas, se veja cada vez mais uma esquerda que se assume evangélica e evangélicos que se assumem de esquerda. E por que não poderiam? Jesus Cristo realmente condenaria o pensamento de esquerda?
A Bíblia contém textos produzidos desde 1500 anos antes do nascimento de Cristo, até textos produzidos 110 anos depois, escritos por mais de 40 autores, de diferentes nacionalidades e épocas. Há, ainda, imensas disputas sobre as traduções e interpretações.
As palavras de Jesus, na Bíblia, são aquelas atribuídas a ele pelos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João que, em certa medida, foram testemunhas mais ou menos diretas dos acontecimentos (outros evangelhos ficaram de fora da edição final). Além dos evangelhos, há, grosso modo, uma coletânea das leis costumeiras do povo hebreu, na forma de sermões, discursos (êxodo, levítico, deuteronômio etc.), profecias e poesia (salmos e provérbios); e, no Novo Testamento, narrativas da vida dos apóstolos, profecia do apocalipse e, de grande importância, as cartas de Paulo de Tarso, consideradas uma primeira interpretação escrita do cristianismo.
Foi necessário um enorme trabalho de edição e curadoria, ao longo de séculos, para escolher quais evangelhos, livros, epístolas etc. seriam considerados ou não na versão oficial. Contudo, embora possa haver (e há) muito debate sobre as escolhas do conteúdo da edição final da Bíblia, creio que não há dúvidas sobre o papel central das palavras de Jesus para o cristianismo.
Somando tudo, há 31.426 palavras de Jesus na Bíblia (um discurso total de quatro horas). A Bíblia inteira possui coisa de 800.000 palavras, ou seja, as palavras de Jesus são menos de 5% da Bíblia. Será que o próprio Jesus aprovaria todas as escolhas do material selecionado e as interpretações que tentam dar coerência ao todo? Ou será que ele diria algo como “vamos focar no essencial da mensagem“?
Talvez Jesus aprovasse todas as cartas de Paulo, inclusive aquela que diz que “as mulheres devem ficar caladas nas assembleias” (Coríntios 14,34-35), ou as restrições alimentares do Velho Testamento, como a proibição de comer carne de porco (Levíticos 11;07) e frutos do mar (Levíticos 11;12), mas talvez não.
Há uma nota ao final do post explicando um pouco da discussão sobre a validação ou não das leis do Velho Testamento por Jesus. Mas, a par do debate teológico, se eu fosse cristão e estivesse em dúvida sobre “o essencial da mensagem“, buscaria as palavras de Jesus, mais do que o Levítico, Deuteronômio ou as cartas de Paulo (que, embora seja considerado o maior intérprete do cristianismo, não conviveu com Cristo).
Ao catolicismo isso pode soar como falta de humildade (querer entender Jesus melhor que Paulo?), mas o fato é que, lendo os evangelhos, se vê que Jesus Cristo nunca disse nada sobre homossexualidade, uso de drogas (nem álcool) e formas de governo. São temas que podem ser extraídos da Bíblia como um todo, mas não das palavras de Jesus.
Mesmo a visão de Jesus sobre a família não era assim tão tradicional, considerando a família da época:
Naquele tempo: Enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo.” Jesus perguntou àquele que tinha falado: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” (Mateus 12, 46-50).
Há algo parecido no trecho em que Jesus, na cruz, olha para sua mãe e para um discípulo que estavam próximos e diz “à sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho; Depois disse ao discípulo: eis aí tua mãe” (João 19:26-27).
Jesus amplia o conceito de família: não se trata mais do laço de sangue, origem ou de amizade (família estendida), mas de um laço espiritual. Um pensamento revolucionário, e não tradicional, sobre a família.
É certo que Jesus reconhece, na união homem-mulher, uma natureza divina, mas o faz para sustentar contra o Velho Testamento, que o divórcio era inadmissível (Marcos 10, 4-12), e não para condenar qualquer outro relacionamento amoroso. Jesus também diverge das antigas leis no episódio da mulher adúltera, quando os acusadores lhe dizem: “Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando e, na lei, nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?” (João, 8:1-4). Ninguém jogou a primeira pedra e Jesus, afastando a lei do Velho Testamento, não a condenou.
Ora, reconhecer santidade na união homem-mulher não implica condenar outras uniões, como as homossexuais. Em termos lógicos, não implica, sequer, negar que outras formas de união possam também estar de acordo com a vontade divina. Esse tipo de condenação pode ser extraída de passagens do Velho Testamento e das cartas de Paulo aos Romanos, mas Jesus não parece autorizar que se leve as leis antigas com muito rigor, e Paulo não foi um discípulo direto, nem testemunha de Jesus em vida, não faltando quem o tenha criticado como intérprete do cristianismo.
Mas, se no campo dos costumes não parece possível acusar Jesus de conservadorismo, no campo da economia, há passagens bastante expressivas sobre o acúmulo de capital. Por exemplo:
“Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Mateus 19:16-30)
“Se queres ser perfeito, vai vender tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois vem seguir-me” (Mateus 19:21)
Não acho que isso permita dizer que Jesus Cristo era de esquerda. Jesus lidava com problemas de outra natureza, como o fim do mundo, o advento de um novo e a salvação das almas. Os meios de produção não parecem estar em discussão. Mas o próprio Engels (coautor do Manifesto Comunista) reconhece:
“tanto o Cristianismo como o socialismo dos operários pregam a iminente salvação da escravidão e da miséria; o Cristianismo coloca a salvação numa vida futura, posterior à morte, no céu. O Socialismo coloca-a neste mundo, numa transformação da sociedade (…)”.
Assim, ainda que Jesus Cristo não possa ser visto como de esquerda, a esquerda não tem como negar seus fundamentos cristãos, senão os metafísicos, ao menos aqueles terrenos. De outro lado, acho difícil ver no cristianismo aquela perspectiva marcadamente individualista da liberdade e da propriedade, que caracteriza o pensamento da direita.
De todo modo, a Igreja Universal tem razão quando acusa a esquerda de dividir o mundo entre ricos e pobres e apontar essa diferença como uma injustiça. Mas isso não parece estar em contraposição à visão de Jesus Cristo, para quem, dificilmente os ricos entrarão no reino dos céus.
Por fim, ainda que Jesus pregasse uma mensagem de paz e união, fez certas concessões, por exemplo, para lidar com o pessoal que misturava religião com negócios. Virou as mesas e expulsou quem vendia e comprava no templo: “A minha casa será chamada casa de oração; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões’“. (Mateus 21;12 e 21;13).
Para Saber Mais
Jesus revogou o antigo testamento?
Em Mateus 5:17-18 Jesus diz que não veio para revogar a lei antiga (velho testamento), mas para fazê-la cumprir. Contudo, há divergências interessantes, inclusive na tradução. Algumas versões em inglês da Bíblia, traduzindo o original do aramaico e do grego, usam as palavras “destroy” em vez de “revogar” e fulfill, em vez de “cumprir“. Jesus não faria aqui, portanto, uma referência técnico-jurídica sobre revogar uma lei antiga e garantir sua obediência. O que ele faz é negar acusações de que estaria distorcendo (“destroy”) a legislação judaica e garantindo que veio realizar (fulfill) as profecias. Como judeu, Jesus conhecia as leis antigas e, muitas vezes diz que elas devem ser seguidas mas, como visto no texto, também fez exceções. De todo modo, parece difícil, sem um passo de fé na inspiração divina de toda a Bíblia (e, portanto, da sua edição por homens), falar em uma espécie de validação ou confirmação das leis antigas na mensagem de Jesus Cristo.
https://www.bibleref.com/Matthew/5/Matthew-5-17.html
A recomendação de voto da Igreja Universal
Um resumo do clima Esquerda vs. Direita nos anos 2000 e a Terceira Via
https://www.sabedoriapolitica.com.br/economia-politica/terceira-via/
Apoio da Universal à campanha de Lula em 2001
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0810200241.htm
A esquerda evangélica
Sobre a formação da Bíblia
https://pt.wikipedia.org/wiki/B%C3%ADblia
As palavras de Jesus são menos de 5% da Bíblia
https://www.abiblia.org/ver.php?id=418
Críticas a Paulo como intérprete do cristianismo
“(…) A ‘boa nova’ foi seguida rente aos calcanhares pela ‘péssima nova’: a
de Paulo. Paulo encarna exatamente o tipo oposto ao ‘portador da boa nova’;
representa o gênio do ódio, a visão do ódio, a inexorável lógica do ódio. O
que esse disangelista não ofereceu em sacrifício ao ódio! Acima de tudo, o
Salvador: ele pregou-o em sua própria cruz. A vida, o exemplo, o
ensinamento, a morte de Cristo, o significado e a lei de todo o Evangelho,
nada disso restou após esse falsário, com seu ódio, ter reduzido tudo ao que
lhe tivesse utilidade (…) A figura do Salvador, seus ensinamentos, seu estilo de vida, sua morte, o significado de sua morte, mesmo as conseqüências de sua morte, nada permaneceu intocado, nada permaneceu sequer semelhante à realidade”. (Nietzsche, O Anticristo, p. 39).Para um resumo da visão individualismo, liberdade e propriedade, com indicação de bibliografia:
Engels e Luxemburgo sobre o cristianismo: