Tiago Zapater
O Zapaterismo acredita que, nas eleições, assim como em todo o resto, não escolhemos racionalmente nossos candidatos. Escolhemos para uma plateia de memórias que vive na nossa própria cabeça. O subconsciente opera em segundo plano, ecoando coisas do tipo: “votar em Lula agradaria a minha mãe“; ou “votar no Bolsonaro vai mostrar para o meu pai que ele não manda em mim“. Há quem se ache imune à influência do próprio subconsciente, mas essas pessoas estão erradas. Pergunte ao seu terapeuta e ele vai confirmar: política é muito mais afeto do que lógica.
No entanto, apesar de escolhermos pelo afeto, defendemos nossas escolhas racionalmente, com base em fatos e na lógica. Isso garante certo nível de civilidade nas discussões, dispensando, por exemplo, o porte de arma para defender seu candidato.
Mas quais são os fatos importantes ? Essa escolha (sempre ela) passa também pelos afetos, mas procurar fatos já é meio caminho andado. Como sempre, os links para os fatos e dados mencionados aqui estão ao final do post.
Para as eleições de agora, temos muitos fatos, pois, mais do que promessas, carisma e ideologia, os dois principais candidatos têm no currículo as realizações dos respectivos governos. Ainda que as conjunturas econômicas em cada época sejam diversas, não estão tão distantes. Se Lula pegou a crise financeira de 2008 (famosa marolinha), Bolsonaro pegou a pandemia da COVID-19 (famosa gripezinha). Lula se aproveitou da alta do valor das commodities em 2006-2008, e Bolsonaro da alta de 2021.
Bolsonaro herdou uma economia muito pior do que Lula, com muito mais dívidas e despesas. Ainda assim, em 2007 o governo Lula contou com uma receita de 1,5 trilhões de reais que, atualizado para 2020, seria uns 3 trilhões. Em 2020, ano da pandemia, o governo Bolsonaro contou com uma receita de, aproximadamente, 3,5 trilhões de reais, ou seja, do ponto de vista das receitas, Bolsonaro em 2020 tinha mais dinheiro para gastar do que Lula em 2007.
E, com suas conjunturas, o que cada um conseguiu entregar?
É muito difícil, mesmo entre bolsonaristas, encontrar alguém que diga que o governo Lula não fez nada. A lista é grande: redução da fome, redução da pobreza, acesso à educação, redução da desigualdade, redução do desmatamento, redução do desemprego e crescimento econômico. Não foi por acaso que Lula terminou o mandato com 80% de aprovação.
Por isso, as críticas ao governo Lula costumam estar não na falta de resultados, mas no que se vê como o custo desses resultados: corrupção e endividamento público. O que se diz é que estaríamos hoje pagando a conta dos anos de bonança do governo Lula.
Mas, nos números, é muito difícil confirmar a tese de que Lula entregou um Brasil quebrado e endividado.
Quando Lula assumiu a presidência, a dívida pública do Brasil era de 59,93% do PIB. Em 2010, no final do governo Lula, essa dívida (incluindo dívidas das estatais) era de 37,98% do PIB. Ou seja, os ganhos sociais obtidos no governo Lula não se deram às custas da criação de dívidas.
Além disso, as reservas de dólares aumentaram. Lula recebeu o país com 30 bilhões de dólares em reservas internacionais e entregou com 350 bilhões. A renda per capita cresceu 23,05% e a inflação caiu de 12,5% para 5,9%. O desemprego caiu de 10,5% para 5,3%. Não só a economia foi bem, como houve efetiva melhora nas condições de vida da população. Como seria possível entregar tudo isso (inclusive dinheiro para as reservas), não aumentar dívidas (nem das estatais) e, ao mesmo tempo, quebrar o país?
Daí porque, para outros críticos, o problema não é tanto a conta que Lula deixou, mas o fato de que o Brasil não cresceu tanto quanto outros países da região. Ou seja, “o governo Lula não foi bom porque poderia ter sido melhor“. Um argumento ruim, assim como dizer que “o governo Bolsonaro é bom porque poderia ter sido pior“. Não é uma competição e quem passa fome não está melhor porque na Venezuela se passa mais fome.
Mas e os resultados do governo Bolsonaro?
Com a proximidade das eleições, o governo produziu algumas compilações oficiais para uso na campanha. Além do auxílio Brasil, essas realizações envolvem, na sua maioria (i) privatizações; (ii) regulação do ambiente de negócios (marco legal do saneamento, lei da liberdade econômica, marco legal start ups, marco telecom, marco ferrovias etc.); (iii) obras de infraestrutura; e (iv) redução de impostos.
Redução de impostos, marcos regulatórios, privatizações e obras podem melhorar a vida das pessoas? A cartilha liberal até diz que sim, mas, no campo dos resultados (vida das pessoas), ainda não se vê nenhuma melhora. 30 milhões de pessoas passam fome. 10 milhões estão desempregados. Ao que tudo indica, aquilo que Bolsonaro chama de realizações são, na verdade, iniciativas e não resultados. Em nenhum momento os resultados envolvem redução da pobreza, redução da fome, redução da evasão escolar, redução da mortalidade infantil, aumento dos jovens em universidades etc..
Para Bolsonaro, parece que o próprio conceito do que seria uma realização é diferente e não inclui a melhora na vida das pessoas. A estratégia de Bolsonaro parece ser melhorar o ambiente de negócios e deixar o resultado acontecer por si. Defende-se a “liberdade para trabalhar” (até sob risco de vida, na pandemia), mas não importa se o salário é baixo, se a comida é cara, se as condições de trabalho são precárias, se o trabalhador poderá se aposentar etc.. Cada um que se vire com a sua liberdade.
No campo dos grandes números, é digno de nota que o crescimento acumulado do PIB, com Bolsonaro, deve ficar entre 4,7% e 5%, mantendo-se abaixo da média mundial durante todo o mandato. Nos anos Sarney, o crescimento do PIB foi de 22,72% e, em 8 anos de Lula, 32,62%.
Se o leitor chegou até aqui, tem direito de perguntar: mas e a corrupção? Votar no Lula não é o mesmo que avalizar, ainda que em nome de resultados sociais, esquemas de corrupção?
Antes de responder, convém refletir se é plausível a ideia de que a corrupção realmente diminuiu. Além dos escândalos do MEC e aberrações como o orçamento secreto, não faltam histórias mal investigadas, como a compra de vacinas superfaturadas e os esqueletos no armário da própria família presidencial (que vão de rachadinhas às ligações com milícias).
É por isso que, quando se chega ao tema corrupção, há uma contradição difícil de resolver. Um governo que combata a corrupção vai encontrar mais casos de corrupção, inclusive no próprio governo, do que um governo que se declare honesto, mas não se empenhe tanto. A ideia de que, para acabar com a corrupção basta escolher candidatos honestos é, na melhor das hipóteses, ingênua, porque não dá para saber se um político, uma vez eleito, será honesto. Pode-se, quando muito, apostar que alguém que roubou no passado roubará de novo, mas quando nenhum dos candidatos tem um passado realmente limpo isso ajuda pouco.
De outro lado, se a Polícia Federal, PGR, Ministério Público, CGU, Coaf e TCU funcionarem com autonomia e independência, ninguém precisará depender da honestidade do governante, bastam as instituições. Nesse aspecto, sobre o governo Lula, o próprio Sergio Moro reconheceu, naquela sentença do triplex:
“É forçoso reconhecer o mérito do Governo do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fortalecimento dos mecanismos de controle, abrangendo a prevenção e repressão, do crime de corrupção, especialmente nos investimentos efetuados na Polícia Federal durante o primeiro mandato, no fortalecimento da Controladoria Geral da União e na preservação da independência do Ministério Público Federal mediante a escolha, para o cargo de Procurador Geral da República, de integrante da lista votada entre membros da instituição”. (pg. 186-187 da sentença do caso do triplex)
Sérgio Moro
Bolsonaro, por sua vez, teve o cuidado de colocar um cúmplice na PGR e interferiu na polícia federal até conseguir fazer o órgão concluir que não houve interferência. Sucateou e esvaziou competências de órgãos como COAF e CGU e, assim, encontrou pouca corrupção no seu governo, o que não quer dizer que não tenha havido (veja o MEC).
Em todo voto aceitamos certos aspectos negativos de um candidato, porque apostamos nos positivos. Em um governo Lula, a corrupção será sempre uma preocupação. Em um novo governo Bolsonaro, corrupção será uma, entre muitas, preocupações.
A história do PT mostra que, em vários momentos, o partido colocou a governabilidade acima da ética. A história de Bolsonaro mostra que ele colocou, acima da governabilidade (e acima da democracia), o próprio bolsonarismo.
Quantas vezes Bolsonaro assumiu o risco de ser preso, ou de sofrer um impeachment — que, certo ou errado, seria desastroso para o país –, em troca de, absolutamente, nada, além da sua própria ideologia?
Quem ganha alguma coisa quando o presidente se coloca contra a fiscalização ambiental? Contra a ONU? Quem ganha alguma coisa com um presidente que desafia o STF para defender o direito de um deputado sem noção falar bobagens? O que o país ganha com constantes brigas por pura ideologia?
A troco de absolutamente nada para o país, Bolsonaro se tornou refém do centrão, para quem entregou nada menos que o próprio orçamento público.
Não consigo imaginar nenhum candidato que me faria votar em Bolsonaro, e sei que isso é puramente afetivo. Quase todas pessoas de quem eu gosto e todas as que eu admiro, intelectualmente, são contra Bolsonaro. Eu não preciso de fatos e lógica para escolher Lula, mas, se precisar, estou bem abastecido.
Para Saber Mais
Comparação das receitas do Brasil em 2007 e em 2020
http://www.orcamentofederal.gov.br/orcamentos-anuais/orcamento-2007/lei-1/volumes/Volume_1.pdf
Variação do preço das commodities
Resultados econômicos e sociais do governo Lula
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/05/160505_legado_pt_ru
Sobre a tese de que o PT quebrou o Brasil
Evolução histórica do PIB Brasil vs Mundo
As realizações de Bolsonaro
https://www.entregasdogoverno.com/2022/02/balanco-do-governo-bolsonaro-principais.html
Crescimento do PIB na era Bolsonaro
https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php
Economia global crescerá 5 vezes mais que brasileira em 2022, diz OCDE – BBC News Brasil
Crescimento do PIB na era Sarney
Corrupção no governo Bolsonaro
Combate do PT à corrupção, segundo Sergio Moro

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