Que fim levaram os nazistas no Brasil?

Existe uma história sobre a proibição de Mein Kampf (“Minha Luta”), de Adolf Hitler, no Brasil. Há uma primeira edição de 1934 que, segundo consta, vendeu bem e até recebeu resenhas positivas. Depois, na ditadura, a censura proibiu o livro. Nos anos 1980, houve algumas publicações de pouco alcance e, em 2015, quando a obra caiu em domínio público, cinco editoras pediram o registro para publicação. Uma delas, preparou uma edição comentada por historiadores, mas uma decisão judicial no Rio de Janeiro, em pleno ano de 2016, proibiu a publicação. Embora a proibição esteja limitada ao Estado do Rio, parece ter desestimulado outras publicações.

Mas eu encontrei, no Mercado Livre, uma edição brasileira usada, dos dois volumes de Mein Kampf. Na capa, foto de Hitler e uma suástica. Nenhuma identificação da editora, da tradução ou do ano de publicação. No volume II há uma assinatura datada de 2018, o que é uma pista, mas não descobri ainda a história dessa edição clandestina.

O conteúdo do livro, obviamente, é racista e antissemita. Existe algo de perigoso ali. No entanto, no seu contexto, o livro é também uma prova manifesta de como discursos de ódio levam, efetivamente, a atos de ódio.

Para mim, a leitura não deveria ser proibida (até porque a obra pode ser facilmente achada na internet), e sim obrigatória. Em toda escola, talvez a partir do ensino médio, alunos deveriam ler, capítulo por capítulo, com o acompanhamento e comentários do professor em sala, e as devidas comparações com o discurso político atual e seus perigos.

Genocídios não começam com campos de concentração. Golpes de Estado não começam com tanques nas ruas. Começam com ideias e discursos.

Vejam o que Hitler escreveu ainda em 1926:

“tivéssemos submetido à prova de gases asfixiantes uns 12 ou 15 mil desses judeus, desses corruptores de povos (…) não se teria visto o sacrifício de milhões de nossos compatriotas das linhas de frente. A eliminação de 12 mil patifes, no momento oportuno, teria talvez influído sobre a vida de um milhão de homens honestos que muito úteis poderiam ser à nação de futuro” (Vol. II, cap. XV,  p. 215).

Talvez se alguém perguntasse, à época, Hitler diria que falou em matar judeus apenas em sentido figurado.

Em outro trecho, Hitler trata de uma ideia querida por Bolsonaro, a de que quando se trata de opositores, o erro é matar pouco:

“o meu ponto de vista é este: que não se enforquem ladrões pequenos para deixar impunes os grandes, mas que, em um dia, um grande tribunal de justiça alemão julgue e execute algumas dezenas de milhares dos organizadores e responsáveis pelo crime de traição de novembro e por tudo que se relacione com isso” (vol. II, cap. XIII, p. 118).

Sem surpresa, também encontramos em Hitler a defesa apaixonada do direito ao emprego de armas (para ele e para os seus) e da violência como meio de defesa na política. Também está por ali um pouco daquilo de o povo armado jamais será escravizado. Acompanhem:

“A convicção do direito ao emprego de armas, mesmo as mais brutais, é sempre associada à fé na necessidade da vitória de uma organização nova e transformadora (…) O novo movimento [nazismo] aceita, desde o primeiro momento, que suas ideias tinham de ser defendidas intelectualmente, e que a sua defesa, em caso de necessidade, também tinha de ser garantida por meios violentos. Fiel à convicção da grande importância da nova doutrina, parecia-lhe evidente que, para o alcance de seu fim, nenhuma vítima deveria ser grande demais” (vol. II, cap. XIII, p. 109-110).

“povos que depõem as armas antes de tentarem um último esforço mais facilmente preferem, no correr do tempo, sofrer as maiores humilhações e opressões” (vol. II, cap. XV, p. 207).

Aí, vendo a semelhança das ideias de Hitler com o discurso de um Bolsonaro, me veio a pergunta: o que aconteceu com os nazistas no Brasil, que ocupavam cargos nas Forças Armadas? Será que alguma coisa daquele ideário pode ter ficado nas estruturas de pensamento dos velhotes que mandavam na Escola Superior de Guerra e na Academia das Agulhas Negras, quando a turma de 64 tomou o poder? Afinal, Bolsonaro é filho direto desse pessoal.

Antes da Segunda Guerra, nazismo e fascismo (e comunismo) não tinham a mesma conotação de hoje. Existiu um partido nazista em atividade no Brasil até 1937 e o movimento do nazismo foi bem influente em regiões do sul do país.

E o fato de que muitos oficiais brasileiros eram simpatizantes de Hitler e Mussolini é conhecido. Elio Gaspari aponta, inclusive, que o exército americano chegou a se reunir com o Ministro da Guerra de Vargas para expressar a sua preocupação com excesso de germanófilos (simpatizantes da Alemanha) no exército brasileiro, informação tirada do diário do próprio Getúlio Vargas (A Ditadura Derrotada, p. 40).

O Brasil demorou para escolher um lado e não há nenhuma notícia de que os oficiais brasileiros admiradores do nazismo tenham, como os adeptos do comunismo, sido expurgados. Ao contrário, segundo Gaspari:

no Brasil “a direita filofascista e mesmo filonazista jamais foi combatida, muito menos derrotada. Quem olhasse a hierarquia da ditadura no início de 1946 veria poucas mudanças nos palanques. Em ocasiões especiais, podia-se notar o sumiço, nas casacas e nos uniformes, das condecorações distribuídas pelos embaixadores da Alemanha e da Itália” (A Ditadura Derrotada, p. 120).

Essa turma de 1946 incluía os militares envolvidos na deposição/suicídio de Vargas e que estavam na cúpula do regime em 1964. São eles os gestores do ecossistema onde nasceu Bolsonaro e todo o pensamento dito revolucionário.

Seria possível que oficiais simpatizantes do nazismo ficaram bem abrigados nas Forças Armadas brasileiras, sob o manto confortável do anticomunismo? O próprio Gaspari dá uma indicação:

Na Europa a associação com o Eixo custara à extrema direita a vida (quando foi para as trincheiras), a fortuna (Quando a depositou no projeto guerreiro) ou a credibilidade (quando tornou pública a sua posição). No Brasil, nada disso (…) [no Brasil] o anticomunismo haveria de levar a combater a própria aliança antinazista” (A Ditadura Derrotada, p. 120).

Talvez isso explique porque o nazismo, por aqui, é considerado, quando muito, uma ameaça ficcional, coisa de Hollywood. Já o fantasma do comunismo dorme na casa da esquerda. A estratégia funciona, pois o cidadão de bem dorme tranquilo com ideias como a tomada violenta do poder, imposição da ordem pela força, repressão, fechamento do STF, fechamento do Congresso, prisão de esquerdistas, violação de direitos humanos etc., mas fica realmente preocupado quando alguém começa a falar em justiça social.  

Para saber mais

Artigo sobre as publicações e proibições de Mein Kampf no Brasil

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2016/01/12/livro-escrito-por-hitler-volta-as-livrarias-brasileiras-em-meio-a-polemicas.htm

https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/ditadura-proibiu-no-brasil-o-livro-minha-luta-de-adolf-hitler

https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/02/tj-rj-proibe-venda-e-divulgacao-de-mein-kampf-autobiografia-de-hitler.html

Sobre a influência do nazismo no sul do país:

https://www.encontro2020.sc.anpuh.org/arquivo/downloadpublic?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNToiYToxOntzOjEwOiJJRF9BUlFVSVZPIjtzOjQ6IjcwNzUiO30iO3M6MToiaCI7czozMjoiOGRkZWY5NjFhYTU5NDIzOTExZmE5OWNkMWM3ZTFhMjQiO30%3D

Elio Gaspari, A Ditadura Derrotada:

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