Mulheres são os Negros do Mundo?

Tiago Zapater

            Caro leitor, imagine uma outra civilização, em alguma galáxia distante, onde seres parecidos conosco, por um costume de origem desconhecida, utilizassem apenas metade do intelecto disponível. Onde qualquer possível contribuição de metade dos indivíduos dessa sociedade, para tarefas dos mais diversos tipos, é simplesmente desconsiderada e não aproveitada. Essa parece uma sociedade que aproveita todo o seu potencial?  

O exemplo me faz pensar na importância da contribuição do feminismo, não só para as mulheres, mas para a toda a sociedade. Seja pelas conquistas políticas (direitos para mulheres), seja pelos estudos que ajudam a entender a sociedade e a condição humana. E, quanto mais se percebe a profundidade e o alcance das questões tratadas pelo feminismo, mais preocupante é a persistência do machismo nos mais diversos âmbitos.

A mim, parece que, como sociedade (ou talvez como homens), aceitamos que mulheres e homens tenham os mesmos direitos, mas tratamos essa igualdade como um favor porque, veja bem, “mulheres e homens não são ‘realmente’ iguais“. É como se as novas ideias trazidas pelo iluminismo (igualdade de todos) ficassem (mal)acondicionadas dentro de velhas estruturas.

Antigas concepções religiosas, políticas e científicas vão sedimentando essas estruturas. A religião dirá que Deus é homem, e o pecado, original, feminino; a política dirá que líderes precisam ser fortes, e que mulheres não o são; e a ciência dirá que mulheres são “homens imperfeitos“. Mulheres seriam algo como homens a quem faltaria a força física, a razão objetiva, a capacidade de controlar emoções e, claro, o órgão fálico.

Por isso, é muito difícil, para além da abstração das leis, conseguir fazer com que a ideia de que homens e mulheres são iguais seja levada a sério e, sem isso, todo o resto fica ainda mais difícil para o feminismo. Não falta quem torça o nariz para a ideia de uma igualdade real e aponte o dedo para lembrar que, na prática, homens e mulheres são diferentes.

Mas, afinal, o que isso pode querer dizer, que homens e mulheres são diferentes? De perto, todos somos diferentes, em comportamento, preferências, aptidões, valores e mesmo nos níveis de hormônios. A questão é saber quais diferenças importam e para qual finalidade. Será que as diferenças fisiológicas e anatômicas entre homens e mulheres justificam todas as diferenças sociais que são observadas? Quais diferenças fazem diferença? 

Teorias do tipo homens são de marte/mulheres são de vênus parecem ter atualizado o entulho pré-iluminista de uma visão de mundo baseada em uma grande hierarquia, onde cada ser tem o seu lugar, com deus (homem) no topo e mulheres abaixo dos homens. Restos dessa visão já tinham sobrevivido no cientificismo racista do séc. XIX e no tratamento que a ciência médica dá à mulher, buscando confirmar, com falsa cientificidade, a mentira da inferioridade natural (por exemplo, dizendo que o cérebro das mulheres seria menor que o dos homens).

Na sua versão mais recente, essas teorias propõem que a evolução teria feito das mulheres naturalmente aptas a tarefas domésticas e de cuidados com os demais (crianças, idosos, enfermos), porque dão à luz, vinculam-se instintivamente à cria e seriam fisicamente menos aptas para a caça. Já para os homens, caçadores, a evolução reservou aptidões de exploração, de contato com outros homens (na guerra, no comércio ou na política). Por coincidência, essa evolução corresponde à formação daquilo que viria a ser chamado de espaço privado e espaço público. Assim que, naturalmente, mulheres ficam e cuidam da casa e homens saem para o espaço público.

A história, a sociologia, a antropologia e, mais recentemente, a própria biologia evolutiva, mostram exceções demais para que se possa aceitar a sugestão de uma aptidão natural, fruto da evolução, inevitável porque impermeável às circunstâncias sociais, seja de mulheres, seja de homens. Desde a pré-história existiram sociedades matriarcais, sociedades com mulheres guerreiras, outros modelos de maternidade, religiões matriarcais etc.. Mesmo os padrões hormonais de testosterona, que explicariam o comportamento tipicamente masculino, variam, para homens e mulheres, em função de circunstâncias do ambiente.

Assim, aquilo que chamamos de comportamento masculino e comportamento feminino tem muito pouco de determinismo natural. São fruto de estruturas sociais que se perpetuam e que, por mais que sejam poderosas, não são naturalmente inevitáveis.

Pense-se assim: quando uma mulher engravida, uma das primeiras coisas que ela, ou o casal, fará é buscar saber o sexo da criança. Antes mesmo de a criança nascer, já há um feixe de expectativas dos pais sobre quem é (e como deve ser) a criança. Boa parte dessas expectativas tem a ver com a concepção prévia dos pais sobre o que significa ser menino ou ser menina. Revelado o sexo, os pais já preparam todo um mundo de roupas, decoração e expectativas. Quando a criança nasce, já vem ao mundo para assumir um papel de menino ou de menina.

Pais são ensinados e pensam em termos de “como criar meninos” e “como criar meninas“, e também eles foram criados assim. E as meninas são, realmente, criadas como meninas (“a princesinha do papai; a coisa mais linda“), e os meninos são criados como meninos (“o meu moleque. Meu monstrinho. Campeão“). Essas crianças crescem e se comportam de acordo com as expectativas: meninas como meninas, e meninos como meninos. E aí nós dizemos coisas do tipo: “veja só, meninos e meninas são naturalmente diferentes“, sem nos perguntarmos o que realmente há de natural nessas diferenças. E é daqui que sai todo tipo de preconceito com aqueles cuja sexualidade não segue o padrão das expectativas, tidos como não naturais.

Ora, se existe uma aptidão natural da mulher para ficar e cuidar da casa, como explicar que no Brasil, hoje, metade dos lares é chefiado, isto é, sustentado, por mulheres. Essas mulheres estariam indo contra a sua “aptidão natural“? Ou essa “aptidão natural” varia conforme as circunstância sociais? E, nesse último caso, qual a utilidade desse conceito de “aptidão natural“?

As diferenças que fazem diferença, na vida em sociedade (que é a única forma de vida que conhecemos), não são as fisiológicas, mas sim aquelas que dizem respeito à valorização social, isto é, distribuição de aprovação e recompensas. E os valores reconhecidos como dignos de aprovação social são, ainda, tipicamente associados ao masculino: racionalidade, objetividade; coragem; pragmatismo; pensamento lógico; controle das emoções etc.. Valores associados ao feminino, por sua vez, facilmente tendem para um oposto: desequilíbrio; indecisão; insegurança; superficialidade; vaidade etc..

Isso não é consequência da biologia. Esses comportamentos ou qualidades se distribuem igualmente entre homens e mulheres. O que existe é a associação com o masculino/feminino, de modo que mulheres podem ser valorizadas quando agem como homens. Mas ninguém dirá que a objetividade e raciocínio lógico são qualidades tão femininas quanto masculinas, ou melhor, que não tem nada a ver com o gênero, e sim com cada pessoa.

Estruturas condicionam a circulação das ideias na sociedade. Por isso se fala em machismo como algo estrutural. É como se sociedade desenvolvesse e passasse a operar com base em algoritmo que pré-condiciona a distribuição de valores nos mais diversos campos. Na política, ser homem pode ser mais importante do que ter o consenso dos demais. No mercado, ser homem é mais importante do que gerar bons resultados para a empresa. Na ciência, ser homem pode garantir mais credibilidade do que índices de publicação. O algoritmo do machismo se sobrepõe à lógica de cada sistema social, parasita a função social desses sistemas e organiza o que é valorizado ou não de acordo com a sua própria programação.  

Percebe-se, assim, que não é por acaso que o papel de cuidados com o lar, com os filhos, com idosos e com enfermos, tipicamente reservado às mulheres seja desvalorizado, ainda que seu custo econômico esteja na casa dos trilhões (se as mulheres não realizassem gratuitamente esse serviço). É que, pelas lentes do algoritmo machista, não é que homens não consigam fazer essa função, mas sim que, como conseguem fazer outras coisas que mulheres não conseguem, há uma divisão “natural” do trabalho. E, nessa divisão, como o trabalho da mulher pode ser executado pelos homens, esse trabalho não tem valor real.

Sobraria, claro, a maternidade. Mas a valorização social da maternidade é paradoxal, pois apenas reforça a vinculação da mulher ao papel subalterno. É como se as mães tivessem, ao mesmo tempo, mais valor, mas menos possibilidades que as outras mulheres. Se você é mãe, é pressuposto que deve cuidar do seu filho e, em certo sentido, viver em função disso. Como mais explicar a absurda disparidade entre a quantidade de casos de abandono por pais e por mães?

No quadro geral do machismo, essas sutilezas teóricas podem parecer perfumaria. Os números de feminicídios, de violência doméstica, assédio, estupro; as diferenças de remuneração no mercado de trabalho; a dupla jornada das mulheres; parecem ser questões muito mais urgentes. Essas questões são urgentes, mas trabalhar a percepção da arbitrariedade da diferença de papéis (algo que o feminismo tem feito bem nos últimos anos) também é essencial. 

Os recentes áudios do, por enquanto deputado, Arthur do Val, chocam porque mostram, além da sua absoluta inaptidão para a vida pública, uma realidade do machismo. Como homem branco de classe média, no privilégio das inconfidências dos privilegiados, ouvi, muitas e muitas e muitas vezes, coisas parecidas: “pega uma gorda pra tirar a zica“; “vamos para balada em interlagos, que é buc***** garantida“; “mulherada no interior é mais fácil pra quem é de fora“; “pode ser preta, pode ser feia e pode ser gorda, mas não pode ser tudo ao mesmo tempo“. Só alguém que genuinamente não enxerga a mulher, e a si mesmo, como um ser humano é capaz de ver o mundo nesses termos.

Desconstruir o próprio machismo não é fácil, nem para homens, nem para mulheres. Um bom exercício é tentar pensar levando a sério a ideia de igualdade. Se eu gosto (ou não) de praticar, assistir esportes e competir, a mulher à minha frente pode, ou não, ter o mesmo gosto. Se eu gosto, muito ou pouco, de sexo e pornografia, a mulher na minha frente também pode ser que goste, muito ou pouco, conforme suas preferências. Não por ser ela mulher e eu homem. Eu posso gostarde assumir a liderança de projetos importantes no trabalho, e também posso ter medo de me expor. Para a mulher à minha frente é a mesma coisa. Eu não gostaria de ser assediado na rua, nem por mulheres nem por homens, e é provável que a mulher à minha frente também não goste (aliás, creio que ninguém goste). Eu, nem toda vez que sou simpático com uma mulher, ou com um homem, estou procurando sexo, logo, é bem provável que a mulher à minha frente também só esteja sendo simpática.

O feminismo pode atingir altos níveis de complexidade intelectual, mas não é tão difícil de ser praticado quando se leva a sério essa ideia radical de que mulheres também são seres humanos.

É pena que, para alguns, como o deputado Arthur do Val, reconhecer a humanidade das mulheres é uma aspiração apenas para almas mais iluminadas. Ele justificou: “não sou santo, sou homem, sou jovem“. Também aqui é preciso alguma desconstrução, não há nada na natureza do homem, nem nas estruturas machistas da sociedade, que nos obrigue a tratar mulheres como objeto. Arthur do Val errou não porque é homem, errou porque não tem caráter.  

Para Saber Mais

Sobre o título deste post

A sensacional letra de Yoko Ono e John Lennon (compuseram juntos, mas a inversão parece estranha né?) em Woman Is the Nigger of the World. Se vc nunca ouviu, corre lá. Segue um trecho:

We make her paint her face and dance
If she won’t be a slave, we say that she don’t love us
If she’s real, we say she’s trying to be a man
While putting her down we pretend that she is above us
Woman is the nigger of the world, yes she is
If you don’t believe me take a look to the one you’re with
Woman is the slave to the slaves
Ah yeah, better scream about it
We make her bear and raise our children
And then we leave her flat for being a fat old mother hen
We tell her home is the only place she should be
Then we complain that she’s too unworldly to be our friend
We insult her everyday on TV
And wonder why she has no guts or confidence
When she’s young we kill her will to be free
While telling her not to be so smart we put her down for being so dumb
Woman is the nigger of the world, yes she is

Sobre os fundamentos religiosos e a mulher como um homem imperfeito

Sobre a falácia dos homens de marte e mulheres de vênus

Sobre os lares chefiados por mulheres

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2020/02/16/internas_economia,828387/mulheres-sao-responsaveis-pela-renda-familiar-em-quase-metade-das-casa.shtml

Sobre a desvalorização do trabalho de cuidado

Sobre os números da violência contra mulher

https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/

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