Tiago Zapater
Os anti-vacina já não podem negar a eficácia da vacina. De Donald Trump aos filhos de Bolsonaro, mesmo aqueles que gritavam não olhe para cima se vacinaram e, pelas circunstâncias, acabaram forçados a reconhecer que a vacina é, no mínimo, uma coisa mais boa do que ruim. Bilhões de vacinas foram aplicadas e notícias sobre misteriosos casos de infarto e miocardite começaram a soar como as denúncias de atestados de óbito falsificados, caixões vazios, urnas eletrônicas hackeadas e o chupa-cabra. Com bilhões de vacinados, a única reação estatisticamente relevante observada foi a queda no número de casos e óbitos por Covid.
Um novo campo de batalha se mostrou mais confortável, por estar menos suscetível à interferência da realidade: a luta pela liberdade. Os anti-vacina já não são anti-vacina, são pró-liberdade. Eles não só aceitam que as outras pessoas sejam vacinadas (obrigado!), como também eles mesmos se vacinam (obrigado de novo!). Mas são intransigentes com a liberdade dos outros de não se vacinar. Fervorosos opositores de passaportes sanitários e medidas de controle, dizem que “se aceitarmos a exigência de um comprovante de vacina, não se pode saber o que mais poderá ser exigido no futuro“.
Há gente bem intencionada nessa. Nem todos que questionam o passaporte da vacina são do time “eu votei no Amoedo“, ou negacionistas de outrora. E, sem ironia (juro), concedo que é de se esperar que seja necessário buscar um meio-termo entre exageros autoritários de governos e irresponsabilidade egoísta de alguns. Momentos de crise, como pandemias, guerras e terrorismo, facilitam a manipulação do medo e daí nascem medidas e instrumentos autoritários que continuam sendo usados mesmo muito depois que a ameaça já passou.
Mas, se é verdade que a liberdade exige certa vigilância sobre os vigilantes, também é verdade que a vida em sociedade exige um certo senso de coletividade e de realização do bem comum. Para isso, liberdade não pode ser pensada apenas no seu sentido negativo, isto é, como liberdade de proibições, ou a chamada de liberdade negativa. Ausência de proibições e limitações externas é importante, mas a vida é vivida em sociedade, e pressupõe a realização de um bem comum. A liberdade, por isso, demanda sua forma positiva, uma liberdade para fazer, construir, criar, realizar um potencial.
Ao passo em que a liberdade negativa exige apenas a ausência de proibições, a liberdade positiva pressupõe a presença de condições (materiais, sociais, psicológicas) para realizar potenciais. Liberdade negativa é, tipicamente, individual. Um indivíduo pode ser livre enquanto outros são escravos. A liberdade positiva é, tipicamente, coletiva. Um potencial a ser realizado (uma obra de arte, uma nova empresa, uma invenção, uma relação amorosa etc.) é sempre em relação a algo ou a alguém, ainda que seja alguém ausente, como quando se fala de honrar antepassados. A liberdade positiva se exerce pela busca de comunicação, é uma liberdade que se multiplica e possibilita a mais pessoas, impactadas, que exerçam a sua liberdade positiva.
A liberdade de não apresentar um comprovante de vacinação é, tipicamente, uma liberdade negativa e egoísta. Menos que, propriamente, uma liberdade, é mais uma exigência de não estar sujeito a uma restrição, sem que haja nenhum ganho ou realização de um potencial em troca, para si ou para os demais. Argumentos como o de que vacinados também podem transmitir a doença falam apenas em favor de mais medidas de restrições. O argumento de que, se a vacina protege, então vacinados não têm o que temer, é falso, cínico ou mal informado.
Esse tipo de liberdade tem parentes: a liberdade para ter escravos, a liberdade para ter um exército particular, a liberdade de disciplinar os filhos e a mulher, a liberdade de não atender negros e judeus. Todas essas liberdades já foram muito seriamente defendidas (e ainda o são, com diferentes roupas) e governos que se opunham, acusados de tirania.
Se o exercício da liberdade negativa (ausência de limites) prejudica a liberdade positiva dos demais, não estamos falando de liberdade. Aqui, a palavra “liberdade” foi roubada, o nome disso é autogoverno: na minha casa mando eu, na minha empresa mando eu, na minha loja mando eu, no meu carro mando eu etc.. Quem exige autogoverno não está exigindo liberdade, está exigindo poder, normalmente, para limitar a liberdade dos demais.
Para saber mais
Sobre a quantidade de vacinas aplicadas:


Os defensores da liberdade
Protestos contra o passaporte da vacina
Sobre liberdade positiva e negativa:


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