Tiago Zapater
Semana passada, o youtuber Monark, em um dos podcasts de maior audiência do país, defendeu o direito de pessoas serem “anti-judeu” e a criação de um partido nazista. O deputado Kim Kataguri, que estava no show, concordou que o partido nazista não deveria ser criminalizado, uma vez que o partido comunista não o é. Adrille Jorge, um “comentarista de opinião” da Jovem Pan, falou algo parecido, equiparando comunismo com nazismo, e encerrou com uma saudação nazista, que ele nega ter sido nazista (pelo menos isso!). Monark, coitado, diz que não defendia o nazismo, mas só o direito de ser nazista e o Kim diz que foi mal interpretado.
Conforta um pouco o fato de ainda haver algum consenso de que o nazismo foi algo ruim, muito ruim. A esquerda se aproveita desse consenso para apontar o quanto de direita existe no nazismo (conservador nos costumes, intervenção militar, meios de produção privados), ao passo em que a direita ressalta a forte regulação estatal da economia para afirmar que o nazismo foi um movimento de esquerda. Como os próprios nazistas discordam dessa tese, surgiu uma versão mais conciliatória: nazismo e comunismo seriam igualmente ruins, sendo que o comunismo matou 100 milhões de pessoas.
É uma comparação ruim, e que acaba por relativizar o mal absoluto do nazismo, ignorando a centralidade da supremacia racial dessa doutrina.
O nazismo, naquilo que importa, estruturou políticas de estado para exterminar parcelas da população, desumanizando, principalmente, judeus, mas também homossexuais, portadores de necessidades especiais e outros, a fim de realizar um ideal de supremacia racial. Algo assim só tinha sido visto no colonialismo europeu, como da Alemanha no sudoeste da África, e da Bélgica no Congo (campos de concentração, torturas sistemáticas, supremacia racial, desumanização e campos de extermínio são experiências desenvolvidas no colonialismo e aplicadas por Hitler na Europa).
Já o comunismo, sustenta-se em premissas tipicamente econômicas, do tipo: os meios de produção (indústria, agricultura etc.) não podem ser propriedade privada, em benefício do lucro de uns poucos, devendo ser socializados, para que os bens e serviços produzidos sejam igualmente repartidos entre quem os produz.
Embora milhões de pessoas tenham morrido durante governos comunistas, não se pode dizer que esse era o objetivo de uma política estatal, mas sim consequência de políticas econômicas ruins e repressão política (o número de 100 milhões de mortos, em todo caso, é invenção). Note-se que o mesmo pode ser dito do capitalismo, cujas políticas econômicas ruins também mataram, e matam, milhões, de fome e de doenças, assim como a repressão política, quer praticada em ditaduras, quer por forças policiais.
Mas o fato é que nem capitalismo nem comunismo são regimes desenhados com o propósito de matar. Já o nazismo, assim como o colonialismo, tem como fundamento a superioridade de um povo e, como objetivo, a eliminação de outro. Para o nazismo e o colonialismo, a desumanização do outro, com extirpação do direito a ter direitos, é o meio para atingir um fim, que é o extermínio (solução final).
Um partido comunista poderá defender políticas tendentes à eliminação da propriedade privada dos meios de produção, e isso pode ser discutido. Aliás, a Constituição já prevê casos em de expropriações e desapropriações, sem indenização ao proprietário, por exemplo, quando há uso de trabalho escravo (CF, art. 243). Já um partido nazista defenderá o domínio e extermínio de outras pessoas, o que não tem nem como discutir. Não é difícil compreender que se admita a existência de um partido comunista, mas não um partido nazista.
Explicação melhor para uma comparação possível de ambos regimes é encontrada em Hannah Arendt, a partir da noção de totalitarismo. Partindo do seu pensamento (que não tenho pretensão de tentar resumir aqui), pode-se dizer que o stalinismo (que não responde por toda a experiência comunista e é rejeitado por boa parte dos marxistas) e nazismo não devem ser repudiados pelas suas premissas sobre economia, nem pela contagem de corpos em si (que o capitalismo também produz), mas pelo desprezo pela vida humana como parte de uma política de Estado.
Essa política do desprezo é tornada possível pela ausência de qualquer limite institucional ao governo, que se torna total, isto é, coloniza e ocupa todos aspectos da vida (cultura, arte, economia, política, diplomacia, trabalho, família etc.), até a própria vida biológica.
Em comum, Hitler e Stalin tinham a falta de limites. Podiam tratar opositores como inimigos a serem fuzilados. Governavam sem perspectiva de alternativa futura, pois o governo era a sua pessoa. Seus seguidores os consideravam verdadeiros mitos. Ambos defendiam a pátria (ou a revolução) acima de tudo, em especial, acima das pessoas. Ambos eram contra intelectuais e artistas, que eles consideravam inimigos dos verdadeiros valores dos cidadãos de bem (alemão em um caso e operário no outro). A arte e a cultura deveriam ressaltar os verdadeiros valores, quer da revolução, quer da raça (“arte será patriótica, ou não será nada“).
Porque desprezavam a vida, Hitler e Stalin eram favoráveis à tortura e a grupos de extermínio, tanto que formaram seus próprios grupos. Ainda em comum, nenhum dos dois precisou se preocupar com um Supremo Tribunal Federal, um Congresso ou mesmo com as Forças Armadas, já que tinham a proteção de uma milícia própria alheia à hierarquia militar oficial.
Soa familiar? É bem possível que, diante da contagem de corpos, ambos tenham digo algo como “e daí, não sou coveiro“.
Para saber mais
Resumo do caso Monark
Sobre os cem milhões de mortos.
Esse número está no livro anticomunista “O livro Negro do Comunismo”, que se baseou em estimativas não-oficiais e que, ao fim e ao cabo, não batem com o crescimento populacional soviético, que de 148 milhões de pessoas em 1926 passou para 196 milhões em 1941.
Outros pesquisadores estabeleceram números muito menores. Para a ditadura stalinista, por exemplo, a análise estatística dos arquivos do aparelho repressivo soviético revelam 3 milhões de vítimas letais da repressão, tanto política quanto criminal: 800 mil execuções, 1,7 milhões de mortos dentro das prisões e campos de trabalho, e 350 mil mortos nos conflitos no campo durante a coletivização forçada da agricultura. As fontes desses números estão no artigo da wikipedia sobre o livro https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Livro_Negro_do_Comunismo
Em tempo, nunca li esse livro
Sobre o conservadorismo e a família tradicional no nazismo
https://www.cafehistoria.com.br/o-controle-da-cultura-e-da-arte-na-alemanha-nazista/
https://www.bbc.co.uk/bitesize/guides/zxb8msg/revision/1
Segundo o artigo “Hitler promovia a importância de uma família tradicional estável. Homens deveriam comandar e proteger a família. Mulheres deveriam servir. Hitler disse que essa era a ‘ordem natural’. Hitler planejava usar a família tradicional para aumentar a população e garantir a pureza ariana“. “Hitler acreditava que a vida das mulheres deveria girar em torno dos três Ks: crianças, cozinha e igreja (kinder, küche e kirche)”;
Imagem da família tradicional amparada pela águia do Reich, propaganda da época.

Sobre os horrores do colonialismo
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57292909 (genocídio sudoeste africano)
Sobre a expropriação de propriedades com trabalho escravo, na Constituição Federal.
“Art. 243. As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o disposto no art. 5º”.
Sobre o totalitarismo

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