Tiago Zapater
Racismo reverso é o reverso do racismo? Peço perdão pelo jogo de palavras, mas penso que possa ajudar a entender algo sobre a tese do racismo reverso, cuja defesa vem ganhando espaço na mídia.
Racismo reverso, para começar, não é o mesmo que o reverso do racismo. O reverso do racismo, bem apontou Ângela Davis, é o antirracismo. Nas palavras dela, “numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista“. Queiramos ou não, o racismo existe e continuará existindo se não forem adotadas ações para reconhecer privilégios raciais e garantir oportunidades equitativas para negros e outros grupos raciais e étnicos historicamente oprimidos.
Já a tese do racismo reverso defende que esses grupos raciais/étnicos historicamente oprimidos, especialmente os negros, na luta contra a opressão que sofrem (ou que, segundo alguns, imaginam sofrer), expressam preconceito e ódio racial contra brancos (ou contra não-negros). Esse seria um racismo reverso.
Alguns defensores dessa tese são honestos e deixam explícitos seus objetivos: políticas identitárias, ações afirmativas, cotas raciais, apenas alimentam o preconceito de todos os lados e, na conta final, geram ainda mais racismo. Por isso, defendem, deveríamos buscar a unidade, superar divisões. Algo na linha daquele vídeo antigo do Morgan Freeman “para acabar com racismo é só não falar a respeito” (hoje, Freeman abandonou essa ideia e é apoiador de movimentos como Black Lives Matter).
Recentemente, a Folha de São Paulo achou conveniente dar espaço ao antropólogo conservador Antonio Risério, para defender a tese do racismo reverso. Segundo o antropólogo, episódios de ódio racial de negros contra brancos, judeus e asiáticos seriam prova da existência de um racismo reverso, isto é, de negros contra não-negros. O autor conta alguns episódios desse tipo ocorridos nos Estados Unidos para concluir pela existência de um projeto de supremacia racial dos negros, que “já contam com instrumentos de poder para institucionalizar o seu racismo” ou sua “hostilidade antibranca“.
Além de um desastre de argumentação, o texto é uma fantasia racista. O argumento é horroroso, pois parte de alguns episódios de expressão de preconceito ou ódio racial de negros contra brancos (nenhum no Brasil) para inferir uma tese geral de “institucionalização da hostilidade antibranca” (palavras dele, não minhas…), sem, obviamente, ser capaz de apontar um único exemplo dessa opressão institucional de brancos por negros. Sua conclusão é ainda pior: deveríamos dar ao racismo negro (contra brancos) a mesma importância que damos ao racismo branco (contra negros). E, se vocês acham que estou exagerando, seguem as palavras do autor:
“Não devemos fazer vistas grossas ao racismo negro, ao mesmo tempo que esquadrinhamos o racismo branco com microscópios implacáveis. O mesmo microscópio deve enquadrar todo e qualquer racismo, venha de onde vier“.
Ou seja, para o autor, racismo é racismo e, dizer que não existe racismo reverso, seria uma forma de criar um estatuto de imunidade para negros expressarem ódio racial contra brancos. Um erro lógico: o autor assume, na conclusão, a premissa de que os episódios de ódio racial de negros contra brancos tratam de algo equivalente ao racismo sofrido pelos negros. Essa premissa precisaria ser demonstrada, mas é tomada como evidente por si mesma.
Seria preciso muito mais esforço e muito mais dados empíricos, pesquisa de qualidade, para poder sugerir a sério que quando um branco sofre ódio racial o fenômeno equivale a um negro sofrer ódio racial. Sozinha, a afirmação nega que a sociedade sirva de referência para explicar um fenômeno eminentemente social, como o racismo. É por conta dessa miséria teórica que a tese depende de causos contados. Quando se abre mão da referência social, o que sobre são os casos individuais e explicações individuais.
Mas, ainda que a tese em si seja muito ruim, resta a pergunta: se a expressão de preconceito e ódio racial de um negro contra um branco não é racismo (reverso), então o que seria?
Pensemos no seguinte: a sociedade é racista porque existem pessoas racistas ou existem pessoas racistas porque existe racismo na sociedade? Como disse Nelson Mandela, ninguém nasce racista. O racismo não é uma disfunção ou condição pessoal. Racismo precisa ser ensinado ou, ao menos, aprendido. Aprende-se o racismo prestando atenção, desde cedo, à sutileza do lugar que a sociedade reserva a cada um. A cor dos servos, dos presos, dos pobres e dos suspeitos não é a cor dos médicos, dos juízes, dos empresários e dos heróis. A cor do andar de baixo não é a cor do andar de cima. Exceções, quando há, confirmam a regra.
Se ninguém explica que esse lugar subalterno não é natural, a conclusão tende a ser a de que, pelo acaso ou por vontade divina, cada cor tem o seu lugar natural. O aprendizado do racismo funciona bem por si mesmo. Basta que ninguém atrapalhe, colocando negros em propagandas, novelas, filmes, universidades, telejornais, cargos de liderança em empresas, cargos políticos etc.. Quando o antirracismo não fica no caminho, a sociedade, por inércia, reproduz o racismo, e mantém cada cor no seu lugar.
Todo e qualquer indicador disponível sobre a realidade da população negra no Brasil confirma o lugar subalterno reservado aos negros que, à luz da história (300 anos de escravidão), confirma a existência de uma estrutura de poder e opressão (ou então uma cruel vontade divina de que as coisas sigam assim).
As pessoas, por sua vez, no curso das suas histórias de vida, pelos mais diversos motivos, podem formar e expressar diferentes preconceitos: de gênero, idade, nacionalidade, religião, orientação sexual, classe social, bairro, sotaque etc.. Alguns desses preconceitos correspondem a uma estrutura de poder e opressão e, portanto, sua expressão não só conta com o apoio dessa estrutura, como a reforça. Machismo, homofobia e antissemitismo são casos desse tipo. Outros preconceitos contarão apenas com motivações individuais e sua expressão não é capaz de reforçar uma estrutura que não existe.
Uma pessoa, branca ou negra, pode, por inúmeras razões, ter preconceito racial contra nórdicos: bullying na aula de alemão; um chefe holandês abusivo; a mãe que traiu o pai com um vendedor de bíblias da Dinamarca etc.. Esse preconceito, note-se, pode ser de brancos contra brancos também. Em razão da vítima ser branca, o preconceito não encontrará uma base social e sua expressão não reforçará uma relação estrutural de opressão. Coisa diversa é o preconceito sofrido por negros, quer venha de brancos ou de outros negros. Aqui, qualquer que seja a história de vida do indivíduo e sua motivação, a expressão do preconceito contra o negro conta com o apoio da estrutura do racismo e a reforça.
Vale dizer, a tese do racismo reverso é falaciosa, porque é irrelevante saber quem pratica o racismo, o que conta é quem pode sofrê-lo. Por isso é possível ser racista mesmo quando não queremos ou achamos que não estamos sendo racistas; e por isso é impossível, mesmo que se queira, fazer um branco sofrer racismo. Falta-lhe a sociedade.
Estando na sociedade (onde mais?), negros estão sujeitos a serem racistas contra outros negros. Basta ver o caso, infelizmente caricato, do infame presidente da Fundação Palmares. O racismo não é, como a elite, um clube exclusivo para brancos, negros podem sim ser racistas, são os brancos que não podem sofrer, propriamente, racismo, porque falta a estrutura social para tanto.
Passado tudo isso, como chamamos então a expressão de ódio de um negro contra um branco? Ora, chamamos de ódio, de preconceito, de discriminação, injúria, danos morais, mas não de racismo reverso.
De outro lado, como chamamos a expressão de ódio racial de um negro contra outro negro? Ora, chamamos de racismo, porque é disso que se trata. E como chamamos a “opressão institucionalizada da hostilidade antibranca“? Chamamos de ficção. Isso não existe.
Para saber mais
Sobre Antirracismo e racismo estrutural
Sobre as diferenças entre preconceito, discriminação e racismo
http://www.dhnet.org.br/w3/ceddhc/bdados/cartilha14.htm
Sobre o vídeo do Morgan Freeman
Sobre os indicadores da população negra no Brasil:
Sobre racismo reverso:
https://exame.com/blog/instituto-millenium/dez-motivos-para-ser-contra-as-cotas-raciais/


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