O perigo dos vacinados e dos motoristas sóbrios.

            Anti-vacinas não acreditam em números ou em probabilidades. Eles até entendem a matemática, mas não acreditam nela. Não permitem que números e estatísticas acabem com o encanto de um mundo com causas claras, definidas e justas. Um mundo com ordem. Segundo essas vozes, pessoas vacinadas ainda podem se contaminar, e ainda podem transmitir a Covid-19. Por isso, dizem eles, exigir algo como um passaporte da vacina, seria uma arbitrariedade. Alguns chegaram a comparar a situação dos não-vacinados com a dos judeus na Alemanha nazista. Às vezes me pergunto o que será dessas pessoas e o que diremos delas daqui 50 anos?

Hoje, o fato é que a dinâmica das redes sociais dá espaço para esse tipo de coisa. Comentários, positivos ou negativos, o tal do engajamento, é o que conta. O algoritmo favorece a polarização. Ser polêmico dá mais dinheiro do que ser honesto. Existe, portanto, racionalidade na atuação de gente como Rodrigo Constantino e congêneres, eles prejudicam muita gente, mas ganham dinheiro. E é fácil, muito fácil. Ninguém precisa estudar para ser anti-vacina.

Mas, se esses picaretas são apenas espertos que entendem como o mundo funciona (são anti-vacinas que se vacinaram!), outra coisa é entender seus seguidores. Pesquisa recente mostrou que 16% dos pais não pretende vacinar seus filhos contra a Covid-19. Nas famílias de maior instrução e renda, o percentual vai para 23%. Escolas de elite fizeram abaixo-assinado contra a exigência de vacina (apenas da vacina para Covid-19) para volta às aulas. Esse pessoal não está lucrando para colocar a vida dos filhos (seus e dos outros) em risco. Esse pessoal não tem notoriedade nas redes, nem são influenciadores, ao contrário, são influenciados. Como isso é possível?

            Leonard Mlodinov escreveu que “a intuição humana é mal adaptada a situações que envolvem incertezas” e tende a criar padrões irracionais para explicar o mundo. É difícil, diz ele, nadar contra a corrente da intuição e “a falta de informações leva à concorrência entre diferentes interpretações (…)a mente humana foi construída para identificar uma causa definida para cada acontecimento (…)“.  

Na era das redes sociais, há uma inflação do valor da informação: há tanta informação e tantas fontes que qualquer mentira passa por fato e qualquer mentiroso passa por formador de opinião. Nessa crise inflacionária, há fatos para todos os gostos, e as interpretações concorrentes (as chamadas narrativas), substituem a observação, justamente porque oferecem causas claras, definidas e justas para os acontecimentos.

Por exemplo, pesquisa de 2021 mostrou que, no Estado de São Paulo, 42% dos acidentes fatais de trânsito são causados por motoristas embriagados. Um anti-vacina diria que, como 58% dos acidentes fatais são causados por motoristas sóbrios, a proibição de beber e dirigir é ineficaz e arbitrária. Afinal, qual a razão de proibir alguém de dirigir bêbado quando mais da metade dos acidentes são causados por motoristas sóbrios?

            Também aqui a diferença entre a percepção individual do motorista e os dados estatísticos desafia o desencantamento matemático do mundo. Há não tanto tempo, tínhamos os negacionistas do trânsito. Possivelmente os leitores deste blog se lembram de que beber e dirigir já foi o hábito padrão para motoristas de todas as idades. Responsável, era o motorista que não bebia muito antes de dirigir, pedia uma água e um café antes de pegar o carro e, tendo bebido um pouco além da conta, dirigia devagar.

            Aprender a dirigir aos 18 anos era mais ou menos como ser virgem aos 30. Os homens da família ensinavam os mais jovens já a partir dos 12, 13 anos. Alguns ganhavam um carro aos 16 e, nessa idade, iam para a escola de carro mesmo; tudo às claras, com conhecimento de professores e alunos, chave bem exposta sobre a carteira. Eram caras populares, levavam a galera para baladas (com bebida, claro) ou para a praia. Garotos levados roubavam as chaves do carro para sair à noite e o único problema era a mentira.  

            E o cinto de segurança? Passou a ser obrigatório só em 1994 e ouvi muitos e muitos adultos reclamando da obrigatoriedade, dizendo “eu sei dirigir, não preciso de cinto“; ou “isso é um perigo, pode te sufocar ou te deixar preso em um acidente“. Levou tempo, campanhas e multas (muitas multas) para superar o negacionismo do cinto de segurança.

Quanto à bebida, só em 1998 a lei mudou e apenas em 2008 foi reforçada para ser eficaz. Para muitos, a lei era absurda. Diziam “um ou dois copos não deixa ninguém bêbado“; “vai falir os bares“; “estão a punir todos os motoristas por conta de alguns irresponsáveis“. Números, estatísticas e ciência simplesmente não eram capazes de demover a crença dos motoristas de que, mesmo bebendo, eles, e não os números, estavam no controle da situação.  

            Se você acha que estou exagerando, veja o que disse um conselheiro da OAB-DF, em pleno 2008, sobre a mudança na lei: “A lei modifica o que é socialmente aceito. Não ofende os motoristas que dirigem embriagados, ofende as famílias que pretendem se reunir no Natal e não podem mais brindar“. Juro que não inventei, o link está no final do post.

Tem mais. Em 2008, a associação de bares e restaurantes entrou com uma ação no STF, contra a lei, que seria prejudicial aos bares e restaurantes. Até hoje não foi julgada, mas, ao final deste post há o link para quem quiser ver a ação e alguns trechos que recortei dos argumentos usados. Está lá a defesa de um direito de beber e dirigir! Liberdade de beber e dirigir, inclusive em prol da família (que precisa brindar nos eventos), e do direito do “chopista trabalhador” (juro que não inventei esse termo).

            O negacionismo do trânsito, contudo, parece superado. Ao menos ninguém diz que a obrigatoriedade do cinto e a proibição de beber e dirigir são ameaças comunistas. Ainda existem aqueles que, de um modo ou de outro, defendem uma liberdade para beber e dirigir de acordo com o seu próprio julgamento, mas são resquícios de décadas passadas, anos 70 e 80, em que ter um carro inflamava fantasias de autogoverno. Tenho um carro, vou aonde quero, paro onde quero, levo quem e o que eu quero e, dentro dele, faço o que quero. Minha propriedade, minha liberdade. O anti-vacina é o tiozão defendendo o direito de beber e dirigir, direito de não usar cinto e outros direitos que não são direitos.

Beber e dirigir não é um direito, ainda que motoristas sóbrios também causem acidentes. A ciência diz que a probabilidade de um motorista que bebeu causar um acidente é maior. Não quer dizer que vá acontecer, é uma probabilidade. É matemática. Entendemos isso e já quase não há quem defenda um direito de beber e dirigir. Mas há quem defenda o direito de não se vacinar, porque vacinados também podem se contaminar e transmitir a doença. E, pior, há quem acredite nisso.

Talvez daqui 50 anos tenhamos que perdoá-los. É um discurso que se aproveita da dificuldade humana em lidar com o desencantamento do mundo. Queremos uma causa definida para cada fato, queremos motivos, méritos e punições. Mas a matemática não opera assim, a matemática desencanta o mundo e as pessoas querem algo para acreditar. Nada de tão terrível e creio que Albert Camus escreveu bem, quando falava do negacionismo na peste, que “nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos“.

Para saber mais:

Sobre polarização e redes sociais:

Joshua A. Tucker, Andrew Guess, Pablo Barberá, Cristian Vaccari, Alexandra Siegel, Sergey Sanovich, Denis Stukal, and Brendan Nyhan Social Media, Political Polarization, and Political Disinformation: A Review of the Scientific Literature. disponível em https://eprints.lse.ac.uk/87402/1/Social-Media-Political-Polarization-and-Political-Disinformation-Literature-Review.pdf.

Damon Centola. Why Social Media Make Us More Polarized  Disponível em https://www.scientificamerican.com/article/why-social-media-makes-us-more-polarized-and-how-to-fix-it/

Sobre pais que que não pretendem vacinar os filhos:

https://www.saopaulo.sp.gov.br/noticias-coronavirus/oito-de-cada-dez-pais-vao-vacinar-seus-filhos-em-sp-diz-pesquisa-do-governo-de-sp/

https://revistaforum.com.br/brasil/elite-atraso-pais-colegio-custa-8-mil-abaixo-assinado-contra-vacinacao/

Sobre a mente humana e probabilidades

Leonard Mlodinov, O Andar do Bêbado

Sobre acidentes de trânsito causados por bebida

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/09/17/pesquisa-mostra-que-42percent-das-mortes-no-transito-em-sp-sao-causadas-por-suspeita-de-embriaguez-ao-volante.ghtml

Sobre a resistência ao uso do cinto de segurança

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/4/22/cotidiano/20.html

Sobre o direito a beber e dirigir:

Declaração do Conselheiro da OAB-DF

Trechos interessantes da ação no STF:

Link para ação no STF contra a lei seca

https://redir.stf.jus.br/estfvisualizadorpub/jsp/consultarprocessoeletronico/ConsultarProcessoEletronico.jsf?seqobjetoincidente=2628419

Albert Camus, “A Peste“:

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