No post anterior, falei sobre meu espanto diante da relação do pessoal anti-vacina com o patriotismo. Alguns anti-vacina se julgam patriotas, mas colocam seus interesses, medos e crenças particulares na frente dos interesses coletivos. Outros, como Flavio Bolsonaro, Rodrigo Constantino e, mais recentemente, Donald Trump são militantes anti-vacina, mas hipócrita e patrioticamente vacinados.
Leitores atentos apontaram que armei uma falácia: para criticar o patriotismo dos anti-vacinas, criei um espantalho do conceito de patriota. O patriota verdadeiro, ao contrário do que o meu texto sugere, não seria simplesmente alguém que segue sem questionar os governantes, mas alguém capaz, justamente, de defender os verdadeiros valores da pátria, inclusive, contra maus governantes.
Em parte, me declaro culpado. Em minha defesa, digo que foi por amor à ironia. De outra parte, sustento que não houve dano, pois, olhando de perto, o conceito de patriotismo não fica muito melhor do que isso.
De partida, entrego que o patriotismo não é um receituário moral. O patriotismo indica um modo de se colocar em uma relação: interesses da pátria vem antes dos interesses individuais. Mas o patriotismo não diz quais são os interesses da pátria, nem a melhor maneira de perseguir esses interesses ou se esses interesses são moralmente bons.
Patriotismo, para uma linha relevante do pensamento conservador, desde Edmund Burke (séc. XVIII), passando por Kirk Russel (séc. XX), é elaborado como afeto (amor ao local de origem, seus costumes e tradições) e estética (apreço dos símbolos nacionais, como a bandeira e o hino). Para esse pessoal, patriotismo é um sentimento: deve-se amar a pátria e seus símbolos pelo motivo de ser a nossa pátria e de serem nossos símbolos.
Para esse pensamento, a noção de ancestralidade é um componente importante do patriotismo: deve-se amar a pátria por ser o local de origem, tradições e costumes dos antepassados. Amar a pátria é amar a própria família e o dever de amar a pátria é como o dever de amar pai e mãe; não ser patriota é ser um filho ingrato.
Não por acaso, para o pensamento conservador, patriotismo e família andam juntos.
É uma noção poderosa, porque lida com o afeto. Patriotismo, aqui, tem muito pouco a ver com governo e Estado; está relacionado com uma noção de comunidade, de pertencimento a um grupo que compartilha de certos valores, tradições, costumes e local de origem, sugerindo o mito de um antepassado comum. Lealdade à pátria não significa lealdade à organização política do local onde se vive, mas lealdade ancestral.
Não por acaso, ditadores se apresentam como pais da nação e exigem patriotismo.
Na Antiguidade Clássica, onde o conceito parece ter surgido, patriotismo serve de ponte entre poder familiar e a institucionalidade política, que se baseia nesse poder. Se a pólis evoca o público, a pátria clama o privado. Indica uma lealdade à linhagem, aos costumes, e também ao território onde os ossos dos ancestrais estão enterrados, onde a religião santificou o solo. Patriotismo começa como lealdade à própria casa, depois à pólis e depois aos que falam grego (não-bárbaros).
Na Idade Média, o feudalismo torna obsoleta a noção de pátria, porque a relação lealdade/território passa a ter natureza exclusivamente interpessoal, fundada sobre o juramento. O patriotismo é incorporado pelo conceito de cristandade: os laços comunitários, no Ocidente, se fundam na religião católica. Todos são filhos do mesmo pai, todos são irmãos e pertencem ao mesmo Reino.
Não por acaso, ditadores falam em Deus, pátria e família quando querem exigir patriotismo.
Na Modernidade, o patriotismo é retomado para reforçar a separação entre Igreja e Estado. O patriotismo é, para o Estado, aquilo que a fé é para a Igreja. O Estado pode dispensar a fé, pois mobiliza afeto por meio do patriotismo.
Contudo, para ser repositório de afetos, o Estado, se não for uma teocracia, precisa representar ancestralidade: território, costumes, normas jurídicas e instituições políticas devem guardar correspondência com alguma ancestralidade familiar.
O problema é que, se isso funcionava razoavelmente bem para Grécia e Roma, sociedades estruturadas fortemente de modo geográfico, em centro/periferia, na Modernidade, fica muito mais difícil saber quais são os verdadeiros costumes e valores dos territórios onde se formaram os Estados nacionais.
Ainda assim — ou, justamente por isso –, parte do pensamento político e da literatura vai se dedicar à criação de identidades nacionais. Essas identidades teriam uma natureza histórica pré-determinada, isto é, seriam acriticamente herdadas do passado e não construídas no presente, no espaço público. Não por acaso, a noção de raça desempenha um papel importante na criação dos mitos das origens dos povos. Igualmente a religião que, por essa via, retorna ao Estado.
O Estado é laico, não a pátria. A pátria é feita dos costumes e tradições do povo e, portanto, tem religião. E tem raça.
Não é preciso muito para perceber que, nessa noção de patriotismo, muita gente fica sem pátria. A pátria seria formada por certos valores e, quem não comunga desses valores, não pode comungar da pátria.
Ex-escravizados na América (e, por tabela, os afrodescendentes), não podem ser patriotas, pois não são verdadeiros americanos. Assim como judeus, poloneses, ciganos e homossexuais na Alemanha nazista. Assim como os mulçumanos franceses (que não são verdadeiros franceses) e os cristãos no Afeganistão. Assim como os refugiados africanos na Europa, os homossexuais da Arábia Saudita e os indígenas brasileiros.
O patriotismo se converte não em um código de pertencimento, mas de exclusão: raça, credo, orientação sexual e até mesmo posicionamentos políticos podem por alguém de fora do povo de verdade, meio caminho para ser posto de fora do direito.
Não por acaso, foi com base na lei chamada Patriot Act que, em pleno séc. XXI, os Estados Unidos criou um campo de concentração em Guantánamo.
O patriotismo mobiliza o afeto, que é privado, em favor do Estado, que é público, mas opera como uma via de mão única: leva valores inerentes à história e aos círculos de violência familiar para a esfera pública, como se os valores da família (ou de certas famílias) pudessem ser tomados como valores da própria pátria.
Assim, o patriotismo funciona como parasita do interesse público e compreende-se a frase atribuída a Samuel Johnson, de que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” e, no Brasil, bem notou Millôr Fernandes, “…é o primeiro“.
Aqui, políticos são tão canalhas que o patriotismo virou parte do slogan do governo, “Brasil acima de todos“, um plágio do nazista Deutschland über alles (“Alemanha acima de todos“). Igualmente o mantra “Deus, pátria, família“, tomado de empréstimo de fascistas como Salazar. Todos mau exemplos.
Para saber mais
Sobre os anti-vacina vacinados
Sobre patriotismo na Antiguidade:
Fustel de Coulanges, “A Cidade Antiga”.
Sobre o patriotismo na Idade Média
Ernst Kantorowicz, “Os dois corpos do rei”.
Sobre o patriotismo no pensamento conservador
https://www.brasilparalelo.com.br/entrevistas/o-que-e-patriotismo
Michael Billig, Bana Nationalism.
Sobre minorias cristãs perseguidas
Sobre a situação de imigrantes na Líbia
Sobre as origens do “Brasil acima de todos”
https://www.dw.com/pt-br/alemanha-acima-de-tudo-um-verso-e-um-passado-sombrio/a-46002358

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