O último refúgio

Tempos atrás, passei por uma dessas discussões políticas que só são possíveis entre amigos. Perguntei a esse amigo meu, que elogiava o primeiro ano do governo Bolsonaro, o que estava melhor no país. Ele respondeu, e tento reproduzir suas palavras: “o patriotismo, o brasileiro agora é muito mais patriota do que antes”.

Não conseguimos prolongar muito a conversa, mas, como as discussões nunca terminam na minha cabeça, fiquei às voltas com a pergunta: o que significa ser patriota? Qual o lugar, no mundo de hoje, do patriotismo, estranhamente ausente das discussões sobre liberdades e obrigatoriedades que envolvem a vacinação, uso de máscara, distanciamento social e fechamento do comércio?   

No Manual de Campanha do Exército Brasileiro, documento oficial insuspeito de comunismo, encontrei uma definição:  “O patriota coloca os interesses do País acima dos particulares, sendo capaz de renúncias e sacrifícios em prol do cumprimento de objetivos que contribuam para o crescimento de sua comunidade e de sua sociedade“.

Ser patriota, portanto, pela definição do Exército, tem mais a ver com uma forma de se relacionar com os interesses da coletividade do que com comportamentos específicos. Para o patriota, não importa se ele (ou ela!) concorda ou não com os interesses do País, pois ele é capaz colocar os “interesses do País acima dos particulares“, inclusive quando isso exigir “renúncias e sacrifícios” dos seus próprios interesses.

No Brasil, contudo, a maior parte dos patriotas passa a vida toda sem ter a oportunidade de fazer “renúncias e sacrifícios” em prol dos interesses coletivos. Apresentar-se ao serviço militar, por exemplo, é obrigatório, mas a maioria é dispensada de servir (em 2019, de 1,6 milhões de jovens que completaram 18 anos, só 90 mil foram incorporados às Forças Armadas). Para aqueles que servem, guerras efetivas são muito raras. Temos, ainda, a obrigação de votar e de pagar impostos, mas ambas podem ser ignoradas (e são) sem maiores consequências.

Até que veio a pandemia.

Uma pandemia é uma oportunidade de ouro para as renúncias que o patriotismo exige. Podemos comparar com uma guerra. Em uma guerra, para além dos soldados, há o esforço de guerra da população, há expropriação e confisco de bens, impostos extraordinários, toque de recolher, controle rígido da informação etc..

A pandemia exige muito menos. Usar máscara, distanciamento social e, em muitos casos, fechar ou limitar o comércio e o turismo, prejudicando o ganha-pão de muitos. Ainda assim, são exigências reais de renúncias e sacrifícios.

Na pandemia, assim como nas guerras, há muito medo e incertezas, que põem em dúvida a necessidade dessas renúncias e sacrifícios. Será que a ameaça é real? O esforço de guerra é realmente necessário ou a guerra é uma desculpa? Estamos adotando a melhor estratégia? Fizemos as alianças corretas?

Por isso, na guerra e na pandemia, informação e desinformação são peças importantes. Imaginem, em uma guerra, pessoas dizendo na internet e na TV que não há guerra, que não há invasão, que o Suriname não existe e coisas do tipo. Imaginem pessoas defendendo a liberdade de expressão para manifestar seu apoio ao lado inimigo, ameaçar comandantes do exército ou divulgar informações falsas sobre o horário dos bombardeios inimigos.

A pandemia, nesse sentido, é muito mais tolerante. Imagino que, em uma guerra, seríamos mais ágeis para bloquear sites, perfis, jornais e canais que propagassem desinformação, pois poderíamos chamá-los não de negacionistas, mas de traidores. Na pandemia, apesar das centenas de milhares de mortes, há paciência e um esforço grande para combater desinformação com informação: consórcio de imprensa, gestão dos dados, checagem de fatos, campanhas de informação etc..

Ainda assim, muitos patriotas foram vítimas das campanhas de desinformação e perderam a oportunidade de colaborar com o país, recusando-se, em nome de uma liberdade individual, a fazer sacrifícios mínimos, como usar máscara.

Até que veio a vacina, e uma nova oportunidade para o patriotismo!  

O que pode ser melhor para um patriota, para mostrar sua capacidade de renúncias e sacrifícios em prol do País, do que algum risco de vida (embora menor do que a chance de uma queda de avião)?

O patriota poderia, ainda, cobrar o mesmo empenho dos seus compatriotas: vacinem-se! A lógica da vacinação, afinal, não é individual. A proteção não é binária (protegido/não-protegido), mas em probabilidades. E nem todos podem ser vacinados ou terão a mesma resposta imunológica à vacina. Ser o único vacinado em meio a uma multidão de infectados não é grande proteção, mas, com toda a população vacinada, as chances de infecção e transmissão, para todos, diminuem.

É como a ordem de apagar as luzes e fazer silêncio à noite, para evitar bombardeios inimigos; não adianta se você for o único da rua a seguir a orientação. E, mesmo com toda a desinformação que circula, o resultado fala por si: com a vacinação, os óbitos passaram de 3000/dia para 200.

No entanto, o verdadeiro patriota não precisa acreditar em dados. Pode escolher seus cientistas de preferência e duvidar de tudo o que estiver na mídia. Ao contrário, é até mais virtuoso se duvidar, pois, para quem acredita na ciência, a vacina não é nenhum sacrifício ou renúncia. Só pode se dizer patriota aquele que, mesmo sem acreditar na vacina, ou acreditando que haja mais riscos que benefícios, ainda assim, em prol do interesse do País, está disposto a sacrificar seu próprio interesse e se vacinar.

Felizmente, os números mostram que temos, entre nossos negacionistas, um imenso contingente de patriotas verdadeiros, dispostos a se vacinar, mesmo não acreditando na vacina. É o caso dos políticos, dos filhos do presidente e dos jornalistas anti-vacina, todos eles devidamente vacinados.

Tiago Zapater

Para saber mais:

Sobre a definição de patriota para o Exército Brasileiro:

Manual de Campanha C 20-10 – LIDERANÇA MILITAR, 2ª Edição, 2011, PORTARIA Nº 102-EME, DE 24 DE AGOSTO DE 2011. Disponível em : http://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/302/1/C-20-10.pdf Acesso em: 02 Set 2018.

Sobre o contingente de recrutados nas forças armadas:

https://www.gov.br/pt-br/noticias/justica-e-seguranca/2020/01/servico-militar-deve-incorporar-90-mil-jovens-no-exercito-marinha-e-aeronautica-em-2020#:~:text=For%C3%A7as%20Armadas-,Servi%C3%A7o%20Militar%20deve%20incorporar%2090%20mil%20jovens%20no%20Ex%C3%A9rcito%2C%20Marinha,Online%20at%C3%A9%2030%20de%20junho.

Sobre uma das desapropriação ocorridas na Segunda Guerra

https://www.migalhas.com.br/quentes/271320/stj-encerra-disputa-de-70-anos-pela-area-onde-hoje-e-aeroporto-de-vitoria

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